Casos Clínicos

Nova tecnologia de alta rotação com luz

Nova tecnologia de alta rotação com luz
Compartilhar | Comentar

Resumo

O moderno conceito de odontologia minimamente invasiva associada à odontologia adesiva apresenta uma mudança de filosofia na prática clínica. Os antigos paradigmas de extensão da região a ser restaurada para proteção do remanescente ou aumento da resistência do material restaurador fazem cada vez menos parte da rotina clínica e conceitos de conservação máxima de estrutura dental passam a ser mais utilizados. Contudo, diante o desenvolvimento de materiais restauradores com propriedades ópticas cada vez mais semelhantes as das estruturas dentais, definir o limite entre materiais restauradores e estrutura dental tem se apresentando um desafio. Desafio este, que quando não executado com precisão, leva a desgastes desnecessários de estrutura dental podendo culminar no enfraquecimento do remanescente da estrutura dental.

O objetivo deste trabalho é apresentar uma nova tecnologia baseada no uso da luz ultra-violeta para a identificação e remoção seletiva de materiais odontológicos promovendo a prática de uma Odontologia minimamente invasiva nos preparos bucais.

Relevância Clínica

A literatura relata que o número de substituições de restaurações vem aumentando, principalmente, devido a negligências dos procedimentos adesivos. A remoção seletiva dos materiais restauradores se faz com canetas de alta rotação guiadas apenas pelo aspecto visual que permita a diferenciação dos materiais e estrutura dental. Nem sempre esta diferenciação é totalmente clara e acabando induzindo a desgastes desnecessários de estrutura dental. Pensemos o quanto pode ser crítico remover uma resina composta no fundo de uma cavidade profunda sem que a luz do refletor alcance adequadamente a região em que se está trabalhando. O contraste entre materiais restauradores e dente induzido pela diferença de fluorescência entre eles poderia tornar este tipo de procedimento mais rápido, prático e preciso.

 INTRODUÇÃO

A crescente demanda por estética com restaurações praticamente “invisíveis” tem induzido ao aprimoramento dos materiais restauradores no intuito de alcançar um mimetismo óptico com os dentes naturais. O mimetismo óptico é desejável, contudo pode dificultar a diferenciação com o dente no momento da remoção do material.

Sabe se que os procedimentos adesivos em odontologia ainda são críticos apresentando-se como elo mais fraco do procedimento restaurador (Manuja et al., 2012) junto à falhas técnicas do próprio profissional. A perda da adesão é apontada como fator desencadeador de várias falhas clínicas como a descoloração marginal, cárie recidiva, sensibilidade, fratura dental ou do material restaurador. Estes motivos por sua vez são apontados na literatura como as principais razões de substituição de restaurações (Prati, 1988).

Diante a necessidade de substituição destas restaurações, se torna de extrema importância que se consiga definir adequadamente os limites entre restauração e dente para que não haja desgaste desnecessário de estrutura dental sadia. Estudos tem demonstrado o quanto a perda progressiva de estrutura dental pode gerar modificações da distribuição de tensões na estrutura dental sobrecarregando o remanescente e levando a fratura do elemento dental (Soares et al., 2008).

Considerando a dificuldade em definir os limites restauração/dente e a importância em preservar estrutura dental sadia, Krejci et al (1995) propôs a utilização de resinas coloridas nas regiões mais profundas da cavidade. Desta forma, no momento de remoção da resina haveria maior facilidade de remoção da resina. Contudo, a utilização deste conceito demandaria ação conjunta junto as empresas que teriam que desenvolver pigmentos para as resinas e limitação para utilização em dentes anteriores já que poderia gerar problemas estéticos (Worschech, 2006).

Desta forma o objetivo deste estudo é propor um novo conceito para evidenciação da cor das resinas compostas que facilite a prática clínica no momento de substituição de restaurações. Este novo conceito se baseia no contraste advindo da diferença de fluorescência de materiais restauradores e estrutura dental. Para evidenciar tal fenômeno um LED com comprimento de onda devidamente ajustado para gerar contraste entre dente e material restaurador foi integrado à alta rotação.

Material e Método

Com o objetivo de validar a nova proposta, imagens que demonstram o contraste entre dente e restauração em diferentes situações clínicas foram capturadas com a utilização da Caneta Cobra Ultra-Vision.

Discussão

O dente humano apresenta fluorescência quando irradiado por luz ultravioleta, uma estrutura é considerada fluorescente quando absorve a energia luminosa da radiação ultravioleta e a reemite no espectro de luz visível (Terry et al, 2002). Quando a radiação ultravioleta incide sobre um corpo, alguma transformação de energia pode ocorrer, produzindo um estado de excitação nos átomos dessa estrutura (Monsénégo et al, 1990). Quando os átomos ou moléculas retornam a um estado de menor excitação, mas não ainda ao estado original, essa radiação de menor energia pode ser emitida no espectro de luz visível, produzindo a fluorescência. Esse fato é conhecido há mais de 100 anos como “Lei de Stokes” (Macedo et al, 2005).

Vanini (1996) salienta que, quanto maior a mineralização menor é a fluorescência, por esse motivo a dentina é mais fluorescente que o esmalte. Segundo Dickson et al (1952), a fluorescência da dentina é quatro vezes a do esmalte. Terry et al (2002) creditam a fotossensibilidade da dentina à sua composição orgânica. Embora a dentina e o esmalte apresentem fluorescência diferente, é essa combinação que acentua a brancura ou a luminosidade do dente.

A fluorescência, como explica Yu, Lee (2008), é uma propriedade importante, pois aumenta a vitalidade dos dentes e, consequentemente, das restaurações, ajudando assim a reproduzir fielmente nas resinas compostas o comportamento natural das estruturas dentárias sob a incidência de luz ultravioleta. O material restaurador ideal seria aquele capaz de emitir luz na mesma intensidade que a dentição natural; atualmente os fabricantes têm adicionados em sua composição pigmentos orgânicos e metais terras raras fotossensíveis à luz ultravioleta, como európio, cerium e itérbio (Takahashi et al., 2008; Nora et al., 2013).

Nota-se, contudo, uma grande disparidade no comportamento referente à fluorescência entre as resinas compostas disponíveis no mercado (Busato et al. 2006). Além disto, não há uma definição clara sobre qual é o objetivo dos fabricantes ao ajustar o nível de fluorescência da resina composta. Enquanto alguns fabricantes parecem ajustar a fluorescência para ser semelhante ao esmalte dentário outros ajustam para ser semelhante à dentina e outros, ainda, para que seja semelhante ao conjunto esmalte dentina. O que vemos ao final são resinas compostas com diversos graus de fluorescência, mas que, de forma geral, se diferem da fluorescência dental.

Nos casos demonstrados as resinas ou cimentos apresentaram-se com maior fluorescência que os tecidos dentais. Isto foi importante para a visualização com precisão dos locais onde estavam presentes as resinas compostas e os limites da restauração. Em caso de remoção do material restaurador, a diferença de fluorescência facilitaria e deixaria mais ágil a prática clínica. Mesmo quando o material restaurador tiver baixa fluorescência haverá a facilidade de remoção já que o mais importante será haver contraste com a fluorescência da estrutura dental.

Várias situações clínicas poderão ser tratadas com maior precisão com o uso desta tecnologia como, por exemplo, para a remoção de braquetes ortodônticos (Figura 4). Muitas vezes há dúvidas por parte do ortodontista se a resina de colagem de baquetes foi totalmente removida. O uso da luz UV acoplada à alta rotação poderá direcionar os locais onde ainda onde há resina composta. O mesmo ponto de vista se aplica quando da necessidade da remoção de pinos intra-radiculares (Figura 5).

A tecnologia proposta visa tornar a prática clínica mais ágil e dinâmica. Tendo como base imagens demonstradas a tecnologia se mostrou eficaz e poderá auxiliar o clínico na prática diária induzindo a um menor nível de desgaste desnecessário de estrutura dental e otimizando o tempo clínico.

Referências

  1. BUSATO, ALS; REICHERT, LA, VALIN, RR; AROSSI, GA; SILVEIRA, CM.Revista Odontológica de Araçatuba, v.27, n.2, p.142-147, Julho/Dezembro, 2006.
  2. CLÁUDIA CIA WORSCHECH. Substituição de restaurações estéticas. Enxergamos os limites? Dental Press Estéica Maringá v.3 n4. 77-90 2006.
  3. DICKSON G, FORZIATI AF, LAWSON ME; SCHOONOVER IC. Fluorescence of teeth. A means of investigating their structure. Am. Dent. Ass. 45:661-67, 1952.
  4. KREJCI I; LIEBER, CL; LUTZ, F: Time required to remove totally bonded tooth colored posterior restorations and related tooth substance loss. Dent Mater n1, 11: 34-40, January, 1995.
  5. MACEDO MRP; ESPEJO, LC; BURGER, RC; DE FREITAS, ACP; NETTO, NG. Comparação da fluorescência de diversas marcas de resina composta. Rev Odontol Univ Cid São Paulo, v.17, n. 2, p.111-117, mai./ago., 2005.
  6. MANUJA N, NAGPAL R, PANDIT IK. Dental adhesion: mechanism, techniques and durability. J Clin Pediatr Dent. 2012 Spring;36(3):223-34
  7. MONSÉNÉGO G, BURDIRON G, PORTE C, NAUD C. Étude de la fluorescence de la pocelaine dentaire. Les Cahiers de Prothèse Juin 1990; 70: 73-85.
  8. NORA, AD; BUENO, RPR; POZZOBON, RT. Fluorescence intensity in composite resin: influence of superficial polishing and storage means. Revista de Odontologia da UNESP, vol.42, n.2, p.104-109, 2013
  9. PRATI C. In vitro and in vivo adhesion in operative dentistry: a review and evaluation. Pract Periodontics Aesthet Dent. 1998 Apr;10(3):319-27.
  10. SOARES PV, SANTOS-FILHO PC, GOMIDE HA, ARAUJO CA, MARTINS LR, SOARES CJ. Influence of restorative technique on the biomechanical behavior of endodontically treated maxillary premolars. Part II: strain measurement and stress distribution. J Prosthet Dent. 2008 Feb;99(2):114-22
  11. TAKAHASHI MK, VIEIRA S, RACHED RN, DE ALMEIDA JB, AGUIAR M, DE SOUZA EM. Fluorescence intensity of resin composites and dental tissues before and after accelerated aging: a comparative study. Oper Dent. 2008 Mar-Apr; 33(2):189-95. P
  12. TERRY DA, GELLER W, TRIC O, ANDRESON MJ, TOURVILLE M, KOBASHIGAWA A. Anatomical form defines color: function, form, and aesthetics. Pract Proced Aesthet Dent Jan/Fev 2002; 14 (1): 59-67.
  13. VANINI, L. Light and Color in anterior composite restorations. Pract Periodontics Aesthet Dent, New York, v. 8, no. 7, p. 673-682, 1996.
  14. VANINI, L. Light and color in anterior composite restorations. Perio Aesthe. Dent Sep 1996; 8 (7): 673-82.
  15. YU B, LEE YK. Differences in color, translucency and fluorescence between flowable and universal resin composites. J Dent. 2008;  36 (10): 840-6.

Autores: 

Francisco Carlos Rehder Neto, Bruno Rodrigues Reis e Valter Scalco.

Fonte:

Gnatus

Gostou do artigo e quer receber mais conteúdo como esse na sua caixa de entrada? Coloque seu email aqui embaixo que do resto a gente cuida.