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Bichectomia: O “emagrecimento” das bochechas

Bichectomia: O “emagrecimento” das bochechas
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Conhecido como o procedimento da “Angelina Jolie”, a cirurgia de Bichectomia virou febre e é hoje motivo de grande interesse dentro da Odontologia, após ter fotos de antes e depois divulgadas pela internet.

Por um lado, percebemos a ansiedade dos nossos pacientes solicitando esse procedimento, por outro, sob o meu ponto de vista, uma boa parte dos profissionais enxergando com maior clareza o lado convidativo do que aparenta ser simples e altamente rentável.

Fantástico estudarmos tudo que estiver ao nosso alcance, tudo que nos dá prazer em executar. Então, ótimo se você estudou e viu que a cirurgia de bichectomia poderá trazer benefícios aos seus pacientes. Eu só acho que não é apenas localizar o ducto da parótida, fazer uma incisão de alguns milímetros, diferenciar cores de tecidos, pinçar e extrair a tão famosa Bola de Bichat. Sim, parece ser tranquilo e é muito mais simples do que uma série de outras intervenções cirúrgicas, mas minha gente, não vamos subestimar. Aliás, não subestime nada na nossa profissão e na área da saúde. A nossa matemática não funciona com a garantia de um desfecho exato e uma foto de antes e depois impactante!

Fora isso, outro fato que tem me tirado o sossego, é a questão do ser belo. De achar que trocar esmalte por “lente de contato” (abomino o termo), “Encapetar” as sobrancelhas com toxina ou “pintar” as sobrancelhas (igual os meninos faziam nas festas juninas), “Afundar” as bochechas e girar os lábios pra fora, irá resolver a vida, trazendo namoro ou casamento de volta. Arrumando uma melhor posição no mercado de trabalho ou, o que é mil vezes pior, te tornar “Monstro” (cirurgiões-dentistas entenderão).

Sinceramente, tenho visto muita desarmonia facial ao invés da harmonia prometida. Estamos perdendo as características individuais, a beleza natural e assumindo uma feição que não parece ser nossa. Penso que isso seja um dos reflexos da busca incessante por um visual digno de ser altamente notado. E que, frequentemente segue acompanhado de um excesso de expectativas. Podemos notar, inclusive, o aumento dos casos de dismorfia, que é a distorção da autopercepção da imagem.

Eu não sou contra mudanças, mesmo porque mudamos todos os dias. Querer aparecer bem é incrível, sou super a favor! Mas é como eu sempre digo: o que a gente não vê, a mídia esfrega na nossa cara. E agora para piorar, a falta de ética está absurda nas redes sociais.

Eu te pergunto: será mesmo legal publicar vídeos e fotos de cirurgia de bichectomia, como de Bolas de Bichat “rebolando” pra sair do seu nicho, cavidade bucal em PB, gordurinha amarela e antes e depois? Colegas, vamos parar de ostentar esses “troféus”.

Para o cirurgião bucomaxilofacial José Luiz Leles, a decisão por mudanças no desenho da face deve fundamentalmente levar em consideração a sua correspondência com o todo da condição corpórea, de modo que a compreensão do que é verdadeiramente harmônico requer visão ampliada da melhor combinação para os diferentes biotipos e momentos da vida. Vistas na infância, bochechas volumosas costumam motivar gestos de simpatia e afetuosidade, mas podem, para alguns, eventualmente gerar estigmas sociais na fase adulta. Para muitas pessoas a Bichectomia surge como a possibilidade de rápida modificação de uma característica facial incômoda; para outras, como uma oportunidade nova de se ajustar às tendências do conceito de belo.

Mas afinal, há algo de errado nisso? Na verdade, o problema não está na aplicabilidade desse interessante recurso cirúrgico, mas sim na sua massificação. Por vezes, a aparência pouco natural de um resultado pós-operatório tem mais a ver com uma possível superindicação cirúrgica do que propriamente com a execução técnica do procedimento, afirma o cirurgião.

“Considero que a Odontologia vive um momento particularmente rico em possibilidades e o cirurgião-dentista deve avançar e se fazer presente com conhecimento e responsabilidade. Há, portanto, um caminho aberto para o trabalho que se renova em oportunidades, como a de realizar com domínio e competência as técnicas de harmonização facial”. José Luiz Leles é Cirurgião Bucomaxilofacial, Professor da Universidade Paulista – Campus Goiânia.

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