Casos Clínicos

Tratamento endodôntico utilizando-se o MTA Fillapex como cimento obturador

Tratamento endodôntico utilizando-se o MTA Fillapex como cimento obturador
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O advento de novos materiais e técnicas destinadas à especialidade endodôntica nos últimos anos oferece novas perspectivas e previsibilidade à terapêutica proposta. Entre estas inovações encontram-se instrumentos confeccionados a partir de ligas especiais como o níquel-titânio, motores que realizam movimentos automatizados de oscilação, rotação e combinação entre os movimentos, ultrassom, magnificação, entre outras. Porém é de unânime opinião entre pesquisadores que a utilização do MTA nos procedimentos reparadores em Odontologia, sobretudo em Endodontia, iniciou um processo determinante no que diz respeito à sua especial atuação frente à reparação biológica, quer seja em dentina, tecido pulpar ou ligamento periodontal.

Nesta acepção, surge o cimento endodôntico obturador MTA Fillapex (Angelus) com a proposta de aliar a capacidade seladora dos cimentos estruturados a partir de resinas, e o efeito indutor de reparação biológica do agregado trióxido mineral como base do novo produto.

Caso clínico

Paciente do gênero masculino, 46 anos, portador de doença valvular cardíaca, apresentou-se no serviço de atendimento da Clínica Odontológica Universitária da Universidade Estadual de Londrina com a queixa de dor referida à região posterior inferior direita. Ao tempo do exame clínico, anamnese e exame radiográfico, foi administrada uma dose de um grama de amoxicilina ao paciente, via oral, no sentido de prevenção à possível bacteremia resultante de intervenção, conforme norma da Associação Brasileira de Cardiologia.

Ao exame clínico, radiográfico (Figura 1) e de sensibilidade pulpar, resultou-se no diagnóstico de abscesso dento alveolar agudo, em fase inicial ou apical, do dente 46, o mesmo apresentando restauração metálica fundida envolvendo dois terços da coroa. Após anestesia por bloqueio regional mandibular, complementada por infiltrativa e intraligamentar, utilizando o anestésico Mepivacaína 2% com adrenalina 1:100.000 (Scandicaine, Septodont), procedeu-se a abertura coronária com broca carbide cirúrgica esférica de 28mm N2 FG (Maillefer) e Endo-Z (Maillefer).

Figura 1. Imagem radiográfica do elemento 46, com pequena área radiolúcida difusa na região apical da raiz mesial.

Figura 01

O preparo da embocadura dos canais foi executado a partir de brocas Largo números 1, 2 e 3 (Maillefer), complementado por CP Drill (Helse) nos terços cervical e médio dos canais. Em seguida foi realizada a odontometria eletrônica, com instrumentos Tilos (Ultradent) manuais número 20(amarelo) para o canal distal e número 15(branco) para os mesiais. Copiosa irrigação durante todo o processo foi realizada com solução de hipoclorito de sódio a 2,5% (Odontofarma). O equipamento utilizado na realização da odontometria foi o Romiapex A-15 (Romibrás).

Para instrumentação do sistema de canais radiculares optou-se pelo sistema Reciproc (VDW), consistindo no motor VDW Silver Reciprocem movimento combinado, e instrumentos Reciproc vermelho (25 0.8) nos canais mesiais, e preto (40 0.6) no distal. Estes instrumentos são de uso único para o caso, tendo sido descartados ao fim do tratamento. Ao final da instrumentação foi executada a irrigação final com o auxílio de energização ultrassônica (ENAC) com ciclagem de irrigantes, a saber, três ciclos de solução de hipoclorito de sódio a 2,5% por trinta segundos, alternando com três ciclos de solução de EDTA a 19% (Ultradent) por trinta segundos.

A secagem dos canais foi realizada com ponta de aspiração CapillaryTip verde (Ultradent) e cones de papel calibrados Reciproc (VDW). Os cones de guta percha escolhidos foram os equivalentes aos instrumentos utilizados, ou seja, cone 25 0.8 Reciproc nos mesiais, e 40 0.6 Reciproc no distal.

A obturação foi realizada pela técnica da condensação lateral passiva, utilizando-se cones acessórios TP FM (Dentsply) e o cimento obturador MTA Fillapex® (Angelus). Para o corte do feixe obturador optou-se pelo equipamento térmico Guta Cut (NRG Medical), e, após limpeza da câmara pulpar com álcool etílico a 92%, restauração temporária com uma camada de Cimpat (Septodont) seguida de resina fotoativada de baixa carga Permalow (Ultradent). A coroa metálica foi mantida provisoriamente para agregar resistência ao remanescente coronário.

Optou-se por não seguir com a medicação sistêmica antibiótica, prescrevendo-se apenas três comprimidos de analgésico Paracetamol 750mg (Tylenol), em intervalos de quatro horas.

Figura 2. Imagem radiográfica do pós-operatório imediatamente após a obturação.

Figura 02

O paciente foi contatado oito e vinte e quatro horas após atendimento, referindo dor estimulada fraca no primeiro contato e ausente no segundo.

Interessante notar a boa fluidez do cimento obturador MTA Fillapex®, ocupando espaços do sistema de canais radiculares que não sofreram ação direta da instrumentação mecânica. A formação de “surplus” ou botões apicais com o cimento escolhido denota a limpeza foraminal ocorrida na execução da técnica de instrumentação proposta, onde o limite de limpeza (nivelado na saída foraminal) e o comprimento de modelagem são coincidentes, fato permitido pelo desenho de alta conicidade nos últimos três milímetros dos instrumentos elegidos.

Igualmente chama atenção a reabsorção do excedente de cimento MTA Fillapex® (Figura 3) em um período de tempo relativamente curto (três meses), fato que mostra o interessante comportamento biológico deste material, ainda que contenha uma carga de MTA considerável, cerca de 60% do volume total. Uma das explicações a este fato pode estar na composição diferenciada do MTA, desta feita realizada apenas com finalidade de uso a que se propôs, ou seja, como cimento obturador endodôntico, e sua estrutura nano particulada, resultando em maior solubilidade no tecido apical.

Figura 3. Imagem radiográfica noventa dias após o tratamento endodôntico. Notar reabsorção do cimento obturador, e ausência de imagem radiolúcida apical.

Figura 03

Autores do Caso Clínico

Carlos Alberto Spironelli Ramos: Especialista, Mestre e Doutor em Endodontia, Professor Associado, Setor de Endodontia, Universidade Estadual de Londrina

Victor Hugo Dechandt Brochado: Especialista, Mestre em Endodontia, Professor Adjunto, Setor de Endodontia, Universidade Estadual de Londrina

Roberto Prescinotti: Especialista, Mestre em Endodontia, Professor Adjunto, Setor de Endodontia, Universidade Estadual de Londrina

Bruno Shindi Hirata: Especialista, Mestrando em Endodontia, Universidade Estadual de Londrina

Fonte: Angelus

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