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Discrepância de modelos em Ortodontia: dentadura permanente vs. mista

Discrepância de modelos em Ortodontia: dentadura permanente vs. mista
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Vamos falar hoje sobre um dos elementos de diagnóstico cruciais para fechar nosso planejamento e optar pelas biomecânicas: a discrepância de modelos em ortodontia!

Modelos? Sim! Nessa fase do planejamento, estudamos os modelos de gesso dos nossos pacientes.

Por que? Os modelos de gesso constituem a melhor maneira de se quantificar apinhamentos e/ou diastemas e sua relação direta com o osso basal. Para tal resposta, convertemos essa diferença em uma conta algébrica denominada discrepância de modelos (DM), que nada mais é do que a diferença entre o volume dental (denominado espaço requerido – ER) e o espaço disponível no osso basal (denominado espaço presente – EP).

A discrepância de modelos pode ser feita na dentadura mista ou permanente. A diferença está na forma de obtenção do espaço requerido (ER), sendo o espaço presente (EP) medido da mesma forma em ambos os casos:

DM = EP- ER

O que é o Espaço Presente (EP)? É o tamanho do osso basal em milímetros, compreendido entre mesial do 1º molar permanente de um lado à mesial de 1º molar permanente do lado oposto.

O que é Espaço Requerido (ER)? Corresponde ao somatório do maior diâmetro mésio-distal dos dentes permanentes localizados de mesial do 1º molar permanente de um lado à mesial de 1º molar permanente do lado oposto.

E como convertemos esses espaços em números?

O Espaço Presente (EP) pode ser medido com fio de latão. Este espaço deve passar pelo centro das coroas dos dentes, contornando a forma do arco dentário, de mesial do primeiro molar permanente de um lado até a mesial do molar permanente do outro lado. Após isso, deve-se esticar o fio de latão sobre um régua e medir o valor final em milímetros. Não existe diferença na obtenção dessa medida na dentadura permanente ou mista, porém, para a análise da discrepância nessa última fase, é necessária a presença dos quatro primeiros molares permanentes e dos incisivos superiores e inferiores permanentes. O EP também pode ser obtido com compasso de pontas secas ou paquímetro de Boley.

No caso da obtenção do Espaço Requerido (ER), a grande diferença entre o cálculo da discrepância de modelos na dentadura permanente e na dentadura mista está na forma de obter-se o espaço requerido. Na dentadura permanente, medimos com compasso de ponta seca às larguras mésio-distais das coroas de caninos e pré-molares. Na dentadura mista, estimamos o espaço requerido por alguns métodos estatísticos e/ou radiográficos.

  • Método de Moyers: utiliza tabelas de probabilidades para a predição do tamanho de caninos e pré-molares a partir dos incisivos inferiores. Temos uma tabela para os dentes superiores e outra para os dentes inferiores, mas nas duas usamos o somatório dos incisivos inferiores como referência. Este método foi criado tomando como referência crianças americanas caucasianas, podendo assim não ser tão eficiente para outras populações.

O espaço requerido para região posterior (onde ainda estão os dentes decíduos) é obtido olhando-se na tabela abaixo, na região de 75% para os superiores e inferiores e utilizando o somatório do tamanho mésio-distal dos incisivos inferiores como referência na tabela. Para o resultado dos superiores, usa-se a tabela A; para os inferiores, a B.

Tabela de Moyers.

Normalmente utiliza-se estimativas de 75%, pois em cada 4 casos, 3 apresentarão o valor estimado. A seguir temos a descrição da sequência para cálculo do espaço requerido utilizando-se o método de Moyers:

  1. Determinar o somatório dos diâmetros M-D dos incisivos inferiores;
  2. A partir dessa soma, utilizar a tabela para predizer o valor de caninos e pré-molares;
  3. Usar probabilidade de 75%;
  4. O valor encontrado na tabela corresponde à somatória dos diâmetros mésio-distais de caninos e pré-molares de uma hemiarcada;
  5. Para determinar o ER, deve-se multiplicar o valor encontrado na tabela por 2 e somar aos incisivos inferiores. E usamos a fórmula: ER= soma M-D inc.inf.+ (valor tabela X 2)

OBS.: Para o arco superior, seguimos a mesma sequência de etapas, porém, devemos fazer a predição dos caninos e pré-molares a partir da soma dos incisivos inferiores (ver na tabela para dentes superiores em 75%), e no momento do cálculo final devemos medir os diâmetros dos incisivos superiores.

  • Método de Huckaba: utiliza 4 radiografias periapicais, 2 para cada lado. O cálculo dos diâmetros M-D dos caninos e pré-molares é individual para cada dente e exige a aplicação de uma regra de três (para cada um dos dentes a serem medidos) a fim de eliminar as distorções radiográficas.

Para cada dente devemos aplicar a seguinte fórmula:

Onde x = dente permanente o qual se quer determinar o diâmetro

Interpretando os resultados da Discrepância de Modelos (DM)

 DM = EP – ER

  • Positiva, ou seja, o espaço presente é maior do que o espaço requerido. Sobrarão espaços na dentadura mista, e na permanente quantificaremos o diastema.
  • Nula, ou seja, o espaço presente é igual ao requerido. O tamanho ósseo é justo para abrigar os dentes permanentes naquele momento.
  • Negativa, ou seja, quando o espaço presente é menor do que o espaço requerido, nos dizendo que não há espaço na dentadura permanente ou que não haverá espaços para a erupção dos dentes permanentes não-erupcionados durante a dentadura mista.
  • Esses dados, somados a outros elementos de diagnóstico, auxiliarão na melhor conduta terapêutica para nosso paciente.

Espero que tenham gostado!

Por fim, seguem algumas referências sobre o assunto, que complementam a matéria. Os autores abordam o método de discrepância em modelos digitais. Vale a pena a leitura:

  • Correia, Habib, Vogel. Tooth-size discrepancy. A comparison between manual and digital methods. Dental Press J. Orthod. 2014; 19(4):107-13.
  • Matsui RH, Ortolani CLF, Castilho JCM, Costa C. Análise de modelos ortodônticos pelo método digitalizado. Rev. Inst. Ciênc. Saúde. 2007; 25(3):285-90.
  • Tenório, Omena e Matta. Análise da Confiabilidade de Métodos Utilizados na Medição do Espaço Presente. Pesq. Bras. Odontoped. Clin. Integr. 2012; 12(4): 555- 60.

 

 

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  • Thalita Galassi

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    Cirurgiã- dentista. Especialista em Ortodontia. Pós-graduada em Dentística Estética. Mestre em Ciências da Reabilitação HRAC USP. Professora de Especialização em Ortodontia - SPO. Palestrante, escritora e consultora técnico-científica em Ortodontia. Membro da Comissão de Mídias Sociais CROSP. Diretora Social da Sociedade Paulista de Ortodontia Mídias Sociais. On-line, compartilhando odontologia desde 2013.
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