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Entenda qual a relação da osteoporose e a odontologia

Entenda qual a relação da osteoporose e a odontologia
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O tema que venho compartilhar com vocês é importantíssimo na nossa atualidade. Na verdade, ele sempre foi importante. Mas agora vem ganhando muito a atenção por parte dos profissionais de todas as áreas da saúde. Trata-se da osteoporose, que é uma doença óssea sistêmica, considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) um problema de saúde pública mundial, com taxas de morbidade e mortalidades que aumentam a cada dia. Por manifestar algumas características nos tecidos do complexo estomatognático, tornou-se também um tema de muito interesse para a odontologia.

A osteoporose possui manifestações orais de interesse para o cirurgião-dentista. Falo deste assunto com extrema responsabilidade, pois o tenho como linha de pesquisa científica, que se iniciou há cerca de 10 anos. Durante os anos, avanços científicos e tecnológicos nos ajudam a entender cada vez mais a doença e como nós dentistas podemos atuar quando o assunto é osteoporose.

Então, para adentrar um pouco mais neste assunto e esclarecer alguns pontos, vamos começar com uma perguntinha básica:

Você sabe o que é a osteoporose?

Trata-se de uma doença caracterizada pelo enfraquecimento dos ossos, deixando os mesmos mais frágeis e, portanto, aumentando o risco de ocorrerem fraturas em conseqüência a traumas de baixa intensidade. Por exemplo: sentar numa cadeira ou subir uma escada, traumas estes que acometem principalmente os ossos da bacia, do fêmur e do antebraço.

Esta doença nas últimas décadas, atraiu atenção especial da área da saúde em todo o mundo, pois os números de casos não param de subir. Com o aumento da expectativa de vida e o envelhecimento gradativo da população a tendência é que os casos subam nos índices. Além disso, temos um fator agravante, que é o fato da doença ter caráter de progressão silenciosa. Isto é, a maioria dos pacientes não relatam dor, por isso é conhecida como “doença silenciosa”. O diagnóstico é confirmado, em grande parte, quando já houve perda considerável da densidade de massa mineral óssea (cerca de 30% a 40%) resultando em fratura de algum osso do organismo.

Como é feito o diagnóstico de osteoporose?

O diagnóstico é dado pelo médico reumatologista por meio da interpretação dos resultados do exame radiológico denominado Exame de Densitometria Óssea – DEXA, que avalia a densidade mineral óssea (DMO) em três regiões do corpo: coluna, cabeça do fêmur e antebraço. É um exame de custo relativamente elevado e dispõe de profissionais especializados para sua realização bem como o aparelho específico. O DEXA (Dual-Energy X-Ray Absorptiometry) é o exame considerado padrão-ouro para o diagnóstico da osteoporose.

O risco para a osteoporose vai ser obtido a partir dos resultados do T-Score em cada sítio avaliado. Esses valores podem ser expressos estatisticamente como o “Desvio Padrão da Média” dos valores médios mensurados em adultos e jovens, que padroniza a medida.

E onde entra a odontologia neste contexto da osteoporose? O que o cirurgião-dentista tem a ver com esta doença?

Em diversas fases do tratamento odontológico é de extrema necessidade que o paciente tenha sua saúde oral em condições saudáveis para receber o tratamento, como próteses e implantes. Mas se o tecido ósseo, que dá suporte aos dentes, à gengiva e todas as estruturas do complexo dentomaxilofacial, não estiverem sadios, com baixa capacidade de regeneração óssea, como esperar o sucesso do tratamento?

Em odontologia precisamos ter em mente que o processo de remodelação óssea saudável é fundamental para que tenhamos sucesso nos tratamentos. A remodelação óssea é um fenômeno que ocorre durante toda a vida do indivíduo e consiste num equilíbrio entre a formação de osso e a reabsorção do mesmo. Mas na presença de algumas doenças ósseas pode apresentar-se comprometido, favorecendo maiores taxas de reabsorção. Ou seja, além da odontologia precisar de um tecido ósseo firme e que sustente os dentes, é importante que o cirurgião-dentista tenha o conhecimento dos exames radiográficos e tomográficos.

A osteoporose interfere na saúde oral e sistêmica do indivíduo. Como a doença tem caráter sistêmico ela possui manifestações orais que podem “passar desapercebidas” mas que se observadas precocemente podem ajudar a conter o avanço da doença e a não causar problemas que refletirão na cavidade bucal. Por exemplo: a redução acentuada do nível ósseo na maxila e mandíbula. Com esse intuito, diversas pesquisas têm sido realizadas para avaliar quais seriam os sinais e sintomas que poderiam se manifestar nos tecidos bucais e peribucais precocemente à instalação da doença e assim contribuir para o rastreio e diagnóstico precoce da doença.

Este assunto é tão interessante e possui tanto conteúdo que poderíamos ficar conversando aqui por horas. Mas vou ressaltar 2 aspectos que podem ser observados nas radiografias, com base nos estudos publicados: aspecto quantitativo do osso e aspecto qualitativo do osso.

Aspectos quantitativos

Em relação aos aspectos quantitativos (que referem-se à quantidade de osso), na literatura científica foi encontrada relação positiva entre os resultados da espessura da cortical mandibular (da base da mandíbula) com os valores do DEXA de indivíduos com osteoporose. Portanto, os autores concluíram que a radiografia apresenta a capacidade de premeditar se há diminuição de massa óssea no organismo, baseado nessa correlação positiva.

Segue abaixo imagens de avaliações quantitativas realizadas em radiografias panorâmicas, retiradas de artigos científicos inclusive de minha autoria neste tema.

Espessura da cortical inferior mandibular na região abaixo do forame mentual (Alonso et al. 2011)

Na minha dissertação de Mestrado pude avaliar que a população do estado de São Paulo possuem essas medidas de espessura de osso cortical. Algumas regiões aparecem anatômicas nas radiografias panorâmicas – tanto homens quanto mulheres -. Obtivemos valores médios para a população brasileira de acordo com as divisões de grupos de idade e sexo. Os resultados encontrados foram muito interessantes e suportam a ideia de que as variáveis, sexo e idade, estão intimamente relacionadas. As alterações identificadas nas radiografias foram de orais sugestivos em osteopenia/osteoporose sistêmica.

Aspectos qualitativos

Numa avaliação qualitativa (que refere-se à qualidade do osso) as avaliações das radiografias dentais demonstraram que o osso cortical mandibular apresenta-se mais fino e poroso. A estrutura trabecular mais esparsa em indivíduos com osteoporose quando comparados à indivíduos sem a doença.

Segue abaixo uma imagem que pode exemplificar uma avaliação qualitativa da cortical inferior mandibular numa radiografia panorâmica:

Classificação da morfologia da cortical inferior mandibular segundo Klemetti, et al.1994

Nas imagens observamos:

C1: a margem da cortical está clara e nítida em ambos os lados;

C2: a superfície endosteal apresenta defeitos semilunares (reabsorções lacunares) ou a superfície apresenta resíduos de cortical;

C3: a camada cortical está extremamente porosa.

É interessante acompanhar o desenvolvimento tecnológico na área do diagnóstico odontológico. Atualmente, com o advento da Tomografia Computadorizada por Feixe Cônico (TCFC) ou Cone Beam CT, muitos outros estudos estão sendo desenvolvidos com a finalidade de avaliação desses indicativos nos exames tomográficos. Assim, avaliando fatores de qualidade e quantidade óssea e sua correlação com uma série de fatores de risco para a osteoporose. Segue abaixo uma imagem que pode exemplificar uma avaliação qualitativa da cortical inferior mandibular na TCFC. As imagens são de um artigo que publiquei juntamente com demais autores sobre o tema.

Existe também um método denominado de microtomografia computadorizada que consiste num exame de raios X 3D capaz de predizer com precisão e confiabilidade todas as características estruturais do osso. Esse exame fornece dados de volume, área e espessura trabecular. É utilizado experimentalmente em estudos científicos e se mostrou muito útil na avaliação de osso saudável e osso osteoporótico, ajudando os cientistas a entenderem as particularidades em cada caso. Muitos artigos já foram publicados demonstrando sua aplicabilidade e compilando para as teorias sobre o tema nesta linha de pesquisa.

Índices acerca da osteoporose

A osteoporose acomete ambos os sexos e de todas as idades, mas alguns fatores de risco podem interferir na distribuição da doença. Segundo a OMS, aproximadamente um terço das mulheres de raça branca, com idade acima de 65 anos tem osteoporose. No Brasil, os dados de estimativa apontam que milhares de mulheres poderão ficar inválidas nos próximos anos. Claro, se nada for feito para impedir.

Nós, cirurgiões-dentistas, utilizamos radiografias em nossa rotina, precisamos atentar para a existência de possíveis sinais e sintomas de doenças sistêmicas, como é o caso da osteoporose. Podemos contribuir para a identificação precoce de pacientes inicialmente assintomáticos, os referenciando para tratamento especializado.

Espero que tenham gostado de saber um pouco mais do que a nossa odontologia é capaz de fazer em prol do indivíduo, visando sempre o melhor tratamento e priorizando sua qualidade de vida.

Quem se interessar e quiser saber mais é só entrar em contato comigo via e-mail: mariabeatriz.unilago@gmail.com. Tenho milhares de artigos para compartilhar!

Até a próxima!

Referências bibliográficas:
1. White & Pharoah. Radiologia Oral. Princípios e Interpretação. 7ª ed.
2. Watanabe & Arita. Imaginologia e Radiologia Odontológica. ELSEVIER.
3. Haiter-Neto F, Kurita LM, Campos PSF. Tomografia Computadorizada em Odontologia. São Paulo: 1. ed. Tota; 2014.
4. Assessment of Panoramic Radiomorphometric Indices of theMandible in a Brazilian Population. Alonso et al, 2011. International Scholarly Research Network. ISRN Rheumatology. Volume 2011, Article ID 854287, 5 pages. doi:10.5402/2011/854287.
5. Validation of cone-beam computed tomography as a predictor of osteoporosis using the Klemetti classification. Alonso MB1,Vasconcelos TV1,Lopes LJ1,Watanabe PC2, Freitas DQ3. Braz Oral Res.2016 May 31;30(1). pii: S1806-83242016000100263. doi: 10.1590/1807-3107BOR-2016.vol30.0073.

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  • Maria Beatriz Carrazzone Cal Alonso

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    Graduada FORP-USP; Especialização em Radiologia Odontológica FOP-UNICAMP; Mestrado em Radiologia Odontológica FOP-UNICAMP; Doutorado em Radiologia Odontológica FOP-UNICAMP; MBA em Gestão Educacional ESALQ-USP; Professora Associada dos Cursos de Graduação e Pós-Graduação UNILAGO- São José do Rio Preto/SP; Professora do Curso de Tecnólogo em Radiologia UNILAGO; Coordenadora do Curso de Odontologia UNILAGO; Professora Convidada do Curso de Especialização em Radiologia AORP-Ribeirão Preto/SP; Radiologista nas Empresas DVI e BRLaudos; Experiência em: radiologia e imaginologia odontológica, diagnóstico por imagem, tomografia computadorizada por feixe cônico (Cone Beam), radiografia panorâmica, anatomia, análises radiomorfométricas, qualidade óssea maxilomandibular e correlação com doenças sistêmicas e osteoporose mandibular.
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