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Gigantes da Odontologia entrevista: Ronaldo Hirata

Gigantes da Odontologia entrevista: Ronaldo Hirata
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Em nossa entrevista de hoje para a série Gigantes da Odontologia, conversamos com Ronaldo Hirata, professor e doutor especialista em dentística restauradora e escritor. Fizemos algumas perguntas sobre sua carreira e experiências, acompanhe:

1- O que fez você se apaixonar pela profissão?

Nos primeiros anos de faculdade não me entusiasmava muito com a odontologia. Como já estava no segundo ano, pensei em terminar a faculdade e depois pensar melhor. Lembro que no vestibular minha ideia era fazer desenho industrial, mas descendentes de orientais deveriam na época fazer medicina, odontologia ou engenharia. Como meu pai era dentista, decidi pela profissão. Tive uma catarse durante a faculdade quando fiz minhas primeiras restaurações de amálgama. Nunca havia sido bom realmente em algo até aquele momento; olhava as minhas restaurações e comparava com a dos colegas e percebia que realmente era bom naquilo e achava muito fácil. Hoje percebo que foi o dedo de Deus me dando um presente, uma experiência relacionada a habilidades e dons. Senti naquele momento que Deus havia me dado uma habilidade como instrumento para exercer meu dom, que hoje, sei que é o dom da palavra e do ensino.

Stephen Kanitz tem um texto que dizia: não devemos buscar fazer o que amamos, isso é um engano. Ninguém vira lixeiro, com todo respeito a profissão, porque um dia resolveu que amava isso e decidiu fazer, mas aprendemos a amar o que fazemos quando o fazemos bem, e porque as pessoas vêem este valor em você. O mesmo vale para odontologia. Esta história de que devemos fazer o que amamos é um pouco resposta de pais que não sabem o que dizer aos filhos, histórias de filmes de amor. Devemos aprender a amar o que fazemos, fazendo com excelência e sendo respeitado por isso.

2- Como foi quando você percebeu que estava sendo fonte de inspiração para outras pessoas?

Acho que isso foi mais claro a partir do contato com jovens. Recebo muitas mensagens e feedback destes alunos e profissionais, relatando algumas passagens pessoais deles. Mas claramente percebi quando um jovem que iria desistir da faculdade assistiu a um curso que eu estavam ministrando e se apaixonou pela dentística; este foi inclusive o relato do pai do garoto. Histórias como estas acontecem até hoje. Aqui em NY, um aluno que estava a ponto de desistir por estar sob muita pressão dele mesmo e infeliz, me chamou um dia dizendo que não parou naquele ano devido as aulas de resinas compostas que eu estava dando.

3- Quem são suas maiores influências no universo odontológico?

Tive várias e todas elas o fiz claro pessoalmente a cada professor. Publicamente sempre cito o primeiro choque que tive em odontologia que foi com o professor Newton Fahl. Era um curso de semana acadêmica e eu era um dos organizadores. Estava vazio porque foi em um feriado e nossa ideia de que isso ajudaria foi desastrosa; fracassamos naquele evento. Mas ele fez uma coisa legal, me mostrou um profissional que não sabia que poderia existir em odontologia: um artista com criatividade e talento. Me abriu um cenário dentro da minha projeção do que podemos ser. Senti que poderíamos ser mais e mais originais. Foi libertário e agradeci a ele pessoalmente já.

A segunda experiência foi o professor Mondelli quando ministrava um curso; não acreditei que poderíamos falar daquela forma, com aquela força e personalidade. Me fez sentir vontade de ser professor.

A terceira foi o professor Baratieri: uma energia e vibração que conseguimos sentir vendo seus cursos hoje. Me fez sentir bem assistindo a ele, e me sentir bem em relação ao que eu ainda buscava fazer pois era aluno de graduação.

Tive outros que foram bem pessoais: Carlos Villatore, um grande profissional que me ensinou a ser dentista, me mostrou que o básico tem que ser bem feito, para depois pensar em complexidade. Me mostrou que ser pontual com pacientes é básico, que devemos terminar um caso clínico quando sentimos que está extremamente bem feito; e somente neste momento. Professor Massaki me ensinou a sensibilidade dos tratamentos e das pessoas, a ser humilde pois sempre estaremos caminhando ainda.

Por último Professor Paulo Gonçalves dos Santos que me abriu as portas para a odontologia, sendo que não era nada ainda, não me considerava talentoso, não era nem o melhor nem o mais preparado, mas ele viu em mim uma curiosidade infinita sobre tudo.

4- Tem algum desejo ou experiência profissional que você ainda não realizou? Se sim, qual?

Devo dizer que acho que realizei mais do que pensava ou queria. Tenho sonhos sim, mas não tenho ambição. Talvez seja um defeito meu. Tenho mais sonhos relacionados ao ser humano: melhorar a vida dos dentistas com procedimentos mais simples e predizíveis, melhorar a vida de pacientes que realmente precisam não por uma vaidade midiática, mas por saúde física e emocional.

5- Qual caso clínico, realizado por você, tem um significado especial? E por quê?

Curiosamente fiz este caso há 3 meses atrás. Aliás escrevi um editorial sobre esta experiência.

Estava na clínica da ILAPEO em um curso de estética que temos há cerca de 14 anos. Uma paciente havia sido indicada pelo curso de implante e precisava de tratamento de lesões cariosas anteriores, aqueles casos que há tempos não via; cáries enegrecidas como em livros de faculdade. Como o curso de implante estava fazendo uma filmagem sobre este caso, precisavam de solução rápida e eficiente. Vi o aluno realizando a anestesia e senti que ele não conseguiria resolver a tempo, pela própria complexidade. Olho para a paciente, menina ainda de 21 anos, ela não abria os olhos por um defeito de formação; era deficiente visual. Sento e resolvo eu mesmo realizar todo o procedimento, removo as cáries, restauro todos e dou um bom acabamento e polimento. Termino em 3 horas sem me levantar. Ao final saio para outra cadeira com outros alunos, e deixo a paciente com os alunos que estavam responsáveis. Eles me chamam e me dizem que ela quer falar comigo. Vou lá, ela está lacrimejando por algumas aberturas que existem nas laterais dos olhos. Ela me diz: estou muito feliz, passo a língua e sinto os dentes, era meu sonho. Me abraça.

Fui para casa pensando nisso e, pensei nela por muito tempo. Ela sentiu a estética, mesmo não enxergando. A estética não é somente visual, isso é fantástico. Fiquei pensando em como tenho usado minhas habilidades dadas por Deus; muitas vezes realizando procedimento estéticos para pessoas feias por dentro, por vaidade pura. Realizando procedimentos cosméticos fúteis para casos em que não havia necessidade. Naquele momento percebi que esta paciente me devolvia o sentido de ser dentista e realizar estética dental. À ela, meu muito obrigado.

Ronaldo Hirata: Cirurgião-dentista, especialista em dentística restauradora, mestre em materiais dentários e doutor em dentística restauradora. Clínico com enfoque em odontologia estética, professor e ministrante de cursos na área de odontologia restauradora.

Site: www.ronaldohirata.com.br

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