Pacientes Especiais (PNE)

Meu paciente tem autismo, e agora?

Meu paciente tem autismo, e agora?
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Imagine uma seguinte situação: você, Cirurgião-Dentista, preparou todo o seu consultório com tanto carinho para seus atendimentos do dia. Chegou até a recepção com sorriso no rosto e
chamou o paciente agendado. Qual seria a sua expectativa? Imagino que perante o seu bom acolhimento, esperava um paciente que o olhasse, interagisse, aceitaria o seu convite para entrar e sentaria em sua cadeira com tranquilidade. Mesmo um pouco relutante à tratamentos invasivos, prestaria atenção em suas perguntas sobre a saúde dele e suas orientações.

Mas, naquele dia, a reação foi completamente diferente! O paciente apresentou pouco ou nenhum contato visual, aparentava insistência às repetições tanto de movimentos corporais quanto idéias verbalizadas, momentos súbitos de raiva passageira (aflição sem causa aparente), recusa afagos e/ou colo. Pois essas são algumas das características do perfil Autista.

A incompreensão de suas condições traz frustração profissional. São necessárias abordagens diferentes com embasamento de conhecimento para que torne o processo de atendimento muito mais eficaz e assim, tornar o alcance de resultado positivo muito maior!

O Autismo

O termo Autismo foi primeiramente utilizado no ano de 1943 pelo médico austríaco Leo Kanner para descrever comportamento diferenciados que ele percebia em alguns de seus pacientes. Foi observado que autismo apresenta diversos aspectos que denominou o termo “Desordens do Espectro Autista” ou “ Condições do Espectro Autista”. Há levantamentos recentes que mencionam a prevalência 1 autista para cada 110 crianças nos Estados Unidos e de 4 a 5 vezes mais em meninos do que em meninas. Pode ser identificado na Infância em torno de 1 ano e meio à 3 anos de idade.

Seu desenvolvimento físico ocorre normalmente, mas, há dificuldades afetivas e sociais, gerando comportamentos de isolamento e solidão. Curiosamente, há pacientes com perfil de hiperatividade e outras com traços de inatividade, categoria comportamental chamada “savant”, que é um déficit psicológico porém, com presença de uma memória fora do comum que pode ser acompanhada de talentos específicos.

Aspectos de saúde geral e bucal

Muitas crianças ou adolescentes fazem uso da Ziprasidona para casos de hiperatividade aguda e alguns de seus efeitos colaterais são xerostomia, taquicardia, fraqueza muscular, alterações
visuais, distonia e erupções cutâneas; ou da Risperidona, medicamento que objetiva redução da irritabilidade porém, efeitos como hiperglicemia, aumento de peso e sonolência.

São fármacos necessários para controle da hiperatividade, auto-injúria e irritabilidade. Em vistas desses comportamentos, os pacientes autistas são propícios ao elevado risco da doença cárie pelas dificuldades de coordenação motora e colaboração. Os pais sempre alegam dificuldades na realização da higiene bucal de seus filhos, com risco de morder seu dedo, força de membros e irritabilidade extrema ao realizar sua contenção para conseguir uma escovação dentária efetiva. Dificuldades quanto ao uso de fio dental são as mais comuns, com total impossibilidade pelo travamento bucal e não colaboração. Alguns casos de total impossibilidade de atendimento ambulatorial, em consultório, requer o uso de sedação ou atendimentos em nível hospitalar com anestesia geral. Portanto, o acompanhamento constante para tratamentos preventivos é de suma importância em curtos períodos e que seja sempre com o mesmo Profissional para que o Autista sinta-se mais seguro e confiante.

Dicas úteis para o seu atendimento ao paciente Autista:

  • Seja pontual. A espera pode interferir negativamente no comportamento do paciente, aumentando a sua hiperatividade;
  • Utilize comandos curtos e bem definidos, sempre acompanhado de um reforço positivo;
  • Antes de dar início ao tratamento, apresente o consultório para que ele possa se familiarizar ao ambiente.
  • Utilize a técnica comportamental dizer-mostrar-fazer utilizando, por exemplo, um bichinho de pelúcia para ensinar a escovação que você fará. Objetos que chamem a sua
    atenção ajuda muito;
  • Mantenha algum pertence dos responsáveis pela criança na sala de atendimento;
  • Não seja imprevisível. Pessoas autistas sofrem com o desconhecido, portanto, explique com calma o que será feito e o deixe a par dos passos que der em seu atendimento.
  • Envolva a pessoa em todos os pontos da consulta. Converse com os acompanhantes sempre envolvendo o paciente.
  • Planeje os atendimentos para que sejam mais rápidos e com o mínimo de estímulo sensorial.
  • Mantenha o som controlado e a voz suave, pois a audição desse perfil de paciente é mais sensível.

Pessoas com autismo precisam do nosso olhar. Elas precisam da nossa atenção. Elas precisam da nossa aceitação. Elas precisam da nossa inclusão. Não é tolerar. É incluir. É amar.

 

Maria Claudia de Morais Tureli / Graduada, Mestre e Especialista em Odontopediatria pela FOP – UNICAMP

Professora do curso de aperfeiçoamento em Odontopediatria – Orocentro / Itapetininga

CROSP 81442

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