Dentística e Estética

O uso do laser no clareamento dental traz benefícios?

O uso do laser no clareamento dental traz benefícios?
Compartilhar | Comentar

A busca por tratamentos estéticos na odontologia cresceu, e muito, durante os últimos anos. Segundo a divulgação da Sociedade Brasileira de Odontologia e Estética (SBOE), nos últimos três anos, os procedimentos estéticos tiveram 300% de aumento. O sorriso perfeito, realmente, entrou na lista de desejos de muitas pessoas. Para o(a) dentista que trabalha com clareamento dental, sabe que alguns procedimentos podem contribuir para a eficácia durante o tratamento. Como é o caso do uso do laser. Será que ele realmente surte efeito no clareamento dental?

Ultimamente, muitos questionamentos foram levantados na mídia referente ao uso de lasers no clareamento dos dentes. Principalmente após uma matéria divulgada no programa Bem-Estar, da Rede Globo, onde o assunto era clareamento dental a laser. Por isso, conversamos com a professora e Dra. Ana Cecília Aranha, Coordenadora do Laboratório Especial de Laser em Odontologia (LELO-FOUSP), que tem vasta experiência no assunto e artigos publicados na área para esclarecer um pouco mais o assunto.

Dental Cremer: Quais os benefícios dos estudos sobre o uso do laser para a Odontologia? O laser é muito utilizado nos procedimentos odontológicos?

Dra. Ana Cecília Aranha: O laser representa um avanço na área tecnológica, com repercussão na área da saúde. Na Odontologia, a prática clínica ganha muito com o uso dessa tecnologia. O laser de baixa potência tem benefícios já relatados na literatura no que se refere aos processos de analgesia, reparação tecidual, podendo ser utilizado após cirurgias para a redução de edemas. São importantes na prevenção e no tratamento das manifestações orais em pacientes submetidos à altas doses de quimioterapia e radioterapia. Ou ainda para redução microbiana através da terapia fotodinâmica. Existe ainda indicação para a prevenção ou diminuição das manifestações do herpes labial.

Não há substituição aos procedimentos realizados convencionalmente em odontologia. É importante enfatizar que os procedimentos realizados convencionalmente sejam de conhecimento para os profissionais que se utilizam dos lasers. Há muitos benefícios. O uso dos lasers associados aos procedimentos convencionais, representa a possibilidade de o profissional agregar ao seu tratamento os benefícios dessa terapia e também de valores ao seu dia a dia na clínica pelo conhecimento científico e clínico.

D.C.: Pode citar alguns procedimentos odontológicos com o laser?

Dra.: São muitos os procedimentos a serem realizados com os lasers de alta e baixa potência em diversas especialidades da Odontologia. Na maioria das vezes, o seu uso é coadjuvante ao tratamento convencional. Algumas aplicações clínicas dos lasers estão descritas abaixo:

  • Dentística: preparo cavitário, redução microbiana pós-preparo cavitário, prevenção de cárie dental, diagnóstico da cárie, condicionamento de esmalte e dentina, hipersensibilidade dentinária e clareamento dental.
  • Endodontia: redução microbiana intra-radicular, cirurgia periapical, controle da sintomatologia dolorosa pós pulpectomia, pós pulpotomia e pós cirurgia paraendodôntica.
  • Periodontia: redução microbiana em bolsa periodontal, gengivectomia, gengivoplastia, remoção de manchas melânicas.
  • Medicina bucal: prevenção e tratamento da mucosite oral em pacientes submetidos a altas doses de radioterapia e quimioterapia. Bem como a transplante de medula óssea.
  • Prótese dental: aumento de coroa clínica, redução microbiana pré-cimentação, remoção de tecido de granulação pré-moldagem.
  • Cirurgia: biomodulação – diminuição do processo de reparação tecidual em aftas, herpes, etc., frenectomia labial e lingual, remoção de lesões proliferativas (granuloma, hiperplasia inflamatória e outras), remoção de lesões benignas (hemangioma, fibroma, linfangioma e outras).
  • Implante dentário: aceleração do processo de reparação óssea, redução microbiana em peri-implantite.
  • Ortodontia: controle das aftas, controle da sintomatologia dolorosa, aceleração do processo de reparação do tecido ósseo.

Para o correto uso do laser é importantíssimo que o(a) dentista conheça os protocolos de irradiação e tenha base científica sólida. Isso é um dos aspectos que o Laboratório Especial de Laser em Odontologia (LELO-FOUSP) procura priorizar. No LELO são utilizados diversos lasers de alta e baixa potência, com diferentes comprimentos de onda. Além disso, possui diversos cursos de formação, a começar pela Graduação, em uma disciplina optativa e disciplinas para pós-graduação. Para profissionais, o LELO oferece cursos de Habilitação, regulamentado pelo CFO, com base teórica e aplicação prática.

D.C.: Comente sobre as matérias que saíram recentemente sobre o clareamento dental utilizando o laser. O que você acha sobre esse assunto?

Dra.: A matéria ganhou popularidade e repercussão devido à polêmica que envolve o assunto. A literatura atual mostra que a fotoativação do gel durante o procedimento clareador não é mais necessária e imprescindível para a realização do clareamento. Em muitos trabalhos, onde somente o gel clareador foi utilizado, mostrou-se, estatisticamente, sem diferenças significantes dos grupos nos quais os mesmos géis eram fotoativados com a luz LED, mostrando não haver necessidade de luz. Os resultados mostram que o clareamento efetivo acontece sem a necessidade de luz. Em outros trabalhos, o uso da luz promoveu índices de sensibilidade pós-clareamento superiores aos grupos sem luz. Estes trabalhos trazem à tona uma discussão ampla e importante.

D.C.: Qual a necessidade da fotoativação durante o procedimento clareador?

Dra.: Outro aspecto bastante importante para reflexão é o termo utilizado: “clareamento a laser”. O cirurgião-dentista pode até utilizar um laser de alta potência, particularmente os lasers semicondutores de diodos ou argônio para clarear. Mas, além do alto custo, os trabalhos mostram haver um aumento de temperatura superior ao limite permitido. Ainda, as pontas e os equipamentos indicados não estão comercialmente disponíveis no país. Sendo assim, a luz a ser utilizada no clareamento dental é um LED e não um laser, e existem muitas diferenças entre essas fontes de luz. Infelizmente, muitos profissionais acreditam que o termo “clareamento a laser” é mais fácil e vendável, quando na verdade, não é correto.

O mais importante é o correto diagnóstico da alteração de cor, a abordagem certa ao paciente, apresentando e explicando as possibilidades de tratamento. Também, escolhendo o melhor protocolo e material para cada caso. E de uma vez por todas, “clareamento a laser” não deve ser mais utilizado! Por menos polêmicas e mais evidências cientificas. A odontologia cresce de forma correta e digna.

D.C.: Por que se interessou pela área de laser na Odontologia?

Dra.: Comecei a estudar mais sobre laser no mestrado, na Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP-UNICAMP) quando desenvolvi um trabalho clínico em pacientes com hipersensibilidade dentinária cervical. A tecnologia me fascinou. Desde então, não parei mais de estudá-la. Depois de 6 anos em Piracicaba, retornei à São Paulo para fazer o Doutorado com o Prof. Carlos de Paula Eduardo no Departamento de Dentística e no LELO (Laboratório Especial de Laser em Odontologia) na Universidade de São Paulo. Foi a partir do Doutorado que comecei a aprofundar os estudos na área de Laser em Odontologia.

Durante o Doutorado, tive o privilégio de estagiar na Universidade de Aachen – RWTH (Alemanha) sob orientação dos professores Norbert Gutknecht e Christian Apel, do Departamento de Periodontia e Odontologia Conservadora e Preventiva. O principal objetivo do estágio foi utilizar os conhecimentos aprendidos no LELO e complementar com as experiências dos orientadores alemães e do Laboratório de Laser (AALZ).

A Profa. Dra. Ana Cecilia Corrêa Aranha é Professora Livre-Docente do Departamento de Dentística, Coordenadora do Laboratório Especial de Laser em Odontologia (LELO-FOUSP) e dos cursos de Habilitação Lasers em Odontologia (Fundecto/FOUSP/LELO)
email: acca@usp.br
Instagram: @ana.cecilia.aranha

Gostou do artigo e quer receber mais conteúdo como esse na sua caixa de entrada? Coloque seu email aqui embaixo que do resto a gente cuida.