Odontologia do Esporte

A Odontologia do Esporte e a Copa do Mundo na Rússia

A Odontologia do Esporte e a Copa do Mundo na Rússia
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A Copa do Mundo de 2018 chegou ao seu fim, sendo a França a grande campeã. Durante todo o campeonato presenciamos lances incríveis e momentos inesquecíveis, um contraste térmico entre o calor da emoção e o clima russo, que tomava conta das ruas de Moscou.

Mas, e a saúde bucal? Onde ela se encaixa nisso tudo? Parte integrante e inseparável da saúde integral de qualquer indivíduo, não pode ser esquecida neste momento. Uma má higiene bucal poderá ser responsável pela queda da saúde geral e da qualidade de vida do esportista, portanto, é essencial que o atleta cuide dela para seu próprio alto rendimento.

Existe uma gama muito ampla em que o(a) dentista pode trabalhar na Odontologia do Esporte, como por exemplo:

– O controle medicamentoso para evitar o doping;

– Os malefícios dos isotônicos;

– A relação entra doenças odontológicas e atraso no processo de reparação muscular;

– O estudo da oclusão dentária e a postura;

– O estudo da biomecânica e traumas orofaciais;

– O uso dos protetores bucais e faciais, as emergências durante treinos e jogos, o uso da saliva como método de avaliação da fadiga;

Os tratamentos voltados a melhora da respiração e qualidade do sono e, consequentemente, a regulação hormonal e desenvolvimento físico em atletas jovens.

A Odontologia do Esporte, assim como a Medicina Esportiva, apresenta diversos recursos que auxiliam o atleta, mantendo ou melhorando seu desempenho esportivo.

Como cirurgião-dentista especialista em esporte e atuante principalmente no futebol, presenciei algumas cenas nessa Copa do Mundo que me chamaram atenção.

Apesar de não termos presenciado nenhum caso de doping por medicação odontológica nesse mundial, é bom lembrar que já tivemos caso de medalhista olímpico banido pelo exame ao usar medicação com substância proibida para dor de dente.

Bebidas Isotônicas

Devemos estar atentos aos danos que as bebidas isotônicas podem causar a saúde bucal dos atletas. Segundo o Centro de Excelência Médica da FIFA, elas devem ser ingeridas antes e após a ingestão de água filtrada, para que assim diminua o seu potencial erosivo, já que apresenta muito ácido no PH, e normalmente são ingeridas no momento em que o atleta apresenta a boca seca.

Meio-campo da Inglaterra, Jordan Henderson, bebendo isotônico

A presença da saliva é essencial para a proteção do órgão dental contra as bactérias, e pode ser utilizada como método de avaliação, obtendo informações valiosas, por exemplo: o grau de fadiga dos atletas. O limiar anaeróbico é definido pela relação do consumo de oxigênio e o aumento contínuo do lactato sanguíneo durante testes de exercício em esteira ou bicicleta. Esse limiar pode ser avaliado através da saliva em coleta e testes laboratoriais, a fim de determinar o nível de resistência à fadiga.

Conforme apontado em diversos estudos, atletas que apresentam doenças periodontais, ou focos infecciosos bucais costumam apresentar também deficiência no processo de reparação muscular. Isso acontece, basicamente, por conta da sobrecarga do processo infeccioso no sistema imunológico, debilitando sua eficiência já que as micro lesões musculares (que ocorrem a cada treino) necessitam de reparação, e na presença de infecção bucal não ocorrem de forma efetiva, causando o atraso no processo de sua recuperação e lesões musculares recorrentes.

Douglas Costa que apresenta histórico de lesões musculares, e sua mal oclusão severa no arco inferior, que, pode estar relacionado à infecção bucal.

 

Tabela do histórico de lesões de Douglas Costa durante a carreira.

A Copa da Maloclusão

Nessa Copa de 2018, a maloclusão dentária vem chamando bastante a atenção. Durante a entrada da Seleção Brasileira para o aquecimento no jogo contra a Sérvia, um lance passou desapercebido. O lateral Marcelo fazia uso de alinhadores invisíveis. Esses dispositivos tem a função de alinhar os dentes na posição correta assim como os aparelhos tradicionais. Considerado um tratamento moderno, rápido, estético e ideal para atletas, já que os bráquetes tradicionais intensificam traumas bucais, debilitam a higiene bucal e favorecem o aparecimento e aumento bacteriano, consequentemente de focos infecciosos.

O nível de competitividade no futebol está cada vez mais alto. A grande exigência física, velocidade e complexidade da biomecânica de movimento resultam em choques na altura da cabeça, pescoço e boca, normalmente originados por pés, braços abertos, pernas, cabeça e joelhos. Que contribuem para esses traumas, cada vez mais recorrentes e considerados hoje um evento esperado e não mais ocasional.

É importante reforçar que os cuidados com os traumas orofaciais não são de exclusividade de ações agressivas propositais ou maldosas, e estão estatisticamente comprovados como um acontecimento natural do esporte.
Abaixo selecionei alguns lances que ocorreram durante a Copa na Rússia:

Segundo o mapa de lesões da Copa do Mundo da FIFA 2018, foram registradas 55 lesões durante todo o campeonato, 13 delas em região de cabeça e pescoço (23,6%).

Prevenir é melhor que remediar

Devemos reforçar que de acordo com estudos divulgados pela ADA (American Dental Association), mais de 5 milhões de dentes são avulsionados (saem completamente da boca) por ano, e a prática esportiva é responsável, em média, por 39% desses casos. A utilização dos protetores bucais é a melhor forma de prevenção das lesões orofaciais. Apesar do futebol ser a segunda modalidade com o maior índice de traumas orofaciais, a maioria dos atletas ainda não fazem uso do acessório.

Os motivos que levam a maioria dos jogadores de futebol a não utilizarem os protetores bucais são desmistificados pela ciência, se limitando apenas a um perfil cultural de negligência. Os protetores bucais individualizados não atrapalham a fala e nem a respiração, apresentam um excelente conforto e adaptação. Eles podem ser fabricados pelo cirurgião-dentista para pacientes que utilizam aparelhos ortodônticos, e não apresentam nenhum tipo de impacto no desempenho esportivo.

Em casos de lesões ósseas da face, como por exemplo o osso nasal, ou processo zigomático, após seu período de recuperação, os atletas podem ter um retorno antecipado pelo uso dos protetores faciais. Fatos que já aconteceram em edições anteriores, onde as mais recentes foram as Copas de 1998, 2002 e 2010. Seguindo o exemplo de confecção dos protetores bucais, os protetores faciais também devem ser confeccionados por cirurgiões-dentistas especialistas em esporte.

Giorgio Chiellini, utilizando o protetor facial na Copa do Mundo, na África, em 2010.

ATM e DTM no esporte

Muitos atletas apresentam um perfil predominantemente ansioso e, por isso, tendem a desencadear hábitos parafuncionais. Dentre os mais comuns, pode-se citar: apertamento dental diurno ou noturno; apertamento de lábios; interposição de objetos entre os dentes; apoio de mão na mandíbula; bruxismo; briquismo; roer unhas ou remover cutículas com os dentes; mastigar de um só lado; chupar ou morder o dedo; apoiar a mão sobre o queixo enquanto dorme.

Esses hábitos desencadeiam diversos problemas a saúde bucal como desgaste dos dentes e exposição da dentina, causando além de sensibilidade dentinária, uma diminuição na dimensão vertical (altura da mordida), dando início a um processo degenerativo da ATM ou disfunção da articulação temporomandibular. Caracterizado pelo ato de ranger ou apertar os dentes, o bruxismo é uma doença que provoca desgaste irreversível dos dentes e pode ser leve, moderado ou severo. O bruxismo pode evoluir para dores nos músculos da face, dores de cabeça e nos movimentos de abertura e fechamento da mandíbula. Ele ocorre com maior frequcia a noite, o que dificulta ao portador da doença identificar sua condição. Por se tratar de uma doença multifatorial, pode se desenvolver também por origem emocional, o que explica sua presença em grande parte dos atletas, que levam uma vida regrada e de altos e baixos emocionais.

O ex-jogador, que se sagrou campeão mundial na Copa do Mundo, na França, em 1998, e atualmente campeão mundial como técnico da França na Copa do Mundo, na Rússia, apresenta essa disfunção. O que chama atenção é que se observarmos seu perfil bucal numa diferença de 20 anos, podemos ter ideia de como a falta de controle dessa doença pode acarretar um processo degenerativo a ponto de acometer: saúde, função e estética. É claro que, para um diagnóstico preciso seria necessária uma avaliação clínica, porém se levarmos em conta o sorriso do técnico nas fotos abaixo, podemos descrever alguns sinais clínicos que essa doença trouxe ao ex-jogador. Além de um bruxismo acentuado, é evidente a falta de alguns elementos dentários, presença de raiz residual, e muito provavelmente o desenvolvimento de disfunção temporomandibular.

Evolução de 20 anos da disfunção do técnico da França, Didier Deschamps, nas Copas do Mundo de 1998 e 2018.

A Articulação Temporomandibular é uma estrutura que também deve ser preservada, uma vez que não está livre dos traumas durante a prática do futebol. Nas semi-finais dessa Copa, França e Bélgica decidiam a vaga para a grande final. Durante a partida, Umtiti e Matuidi da França sofreram traumas em região de ATM. O mesmo aconteceu na grande final entre França e Croácia, com o atacante Mandzukic da Croácia.

Protetores bucais

O que poucos sabem é que a utilização do protetor bucal, previne não só dentes e tecidos moles, como estruturas ósseas adjacentes e todo o complexo da articulação temporomandibular.

Choques direcionados em região mentual ou latero-lateral mandibular, assim como demonstrados nas fotos acima, provocam efeito biomecânico indesejado da cabeça da mandíbula para região de ATM. Jogando-a violentamente dentro da cavidade articular, deslocando o disco articular, afetando músculos e ligamentos.

A utilização do protetor bucal amortece e diminui as forças de impacto. Oferece alívio da articulação temporomandibular, minimizando fraturas, dores, incômodos e pressões em toda sua região e estruturas circundantes. Diminuindo também o risco de concussão cerebral.

Ainda falando sobre a concussão cerebral como uma emergência médica, o cirurgião-dentista é o único profissional capacitado para julgar, diagnosticar e decidir protocolos pós-emergências odontológicas. Dessa forma, é de suma importância sua presença nas comissões técnicas no futebol, assim como acontece em associações de outras modalidades como a National Basketball Association (NBA), National Hockey League (NHL) e National Football League (NFL), entre outras.

Um caso verídico para refletir

Para finalizar, trago um caso que poderia ter tido um final feliz, se o mesmo fosse confiado a um dentista especializado. Um jogador de futebol que após a Copa do Mundo, em 2010, teve que encerrar sua carreira por conta de um reimplante dentário malsucedido.

Durante a Copa do Mundo, na África do Sul, em 2010, o jogador holandês Demy de Zeeuw, sofreu um trauma bucal que resultou na perda de 5 elementos dentários. Segundo o próprio atleta durante os reimplantes, o médico responsável do Hospital de Johannesburg, teria utilizado alumínio em excesso durante o procedimento.

Semi-final da Copa do Mundo da FIFA 2010 entre Holanda e Uruguai, Demy de Zeeuw, durante lance.

O jogador De Zeeuw contraiu uma série de infecções, e se sentia muito doente, fraco, e sem condições de render como um jogador profissional. Foi então que, por orientação médica, ele obrigou-se a encerrar sua carreira com apenas 31 anos de idade.

Todos os temas abordados nessa matéria demonstram como a presença de um cirurgião-dentista nas comissões técnicas fazem a diferença em diversas modalidades esportivas, seja do amador até a maior competição de futebol do planeta. O cirurgião- dentista pode e deve aplicar seus conhecimentos em prol do desempenho, saúde e bem-estar do atleta.

Até mais!

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