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Práticas multidisciplinares na odontologia

Práticas multidisciplinares na odontologia
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O primeiro passo para iniciar um tratamento envolve uma minuciosa anamnese e exame físico criterioso. Para isso, faz-se necessário que o profissional de odontologia assuma um compromisso em buscar informações úteis para o planejamento do tratamento do paciente.

Os primeiros relatos enaltecendo a importância da manutenção da saúde oral e suas repercussões na saúde do paciente é atribuído a Hipócrates (460- 377 a.C.), que já mostrava a importância da remoção de depósitos de restos alimentares da superfície dentária para a manutenção da saúde bucal. Ele considerava a boca como “porta de entrada”, devendo a mesma ser mantida frequentemente limpa para manter o corpo livre de infecções.

Tratamento de morbidades

Morbidades como diabetes mellitus, cardiopatias, nefropatias, dentre outras, sofrem forte influência em sua condição quando seus portadores são associadamente acometidos por doenças bucais, especialmente as de perfil crônico.

A relação existente entre doenças bacterianas bucais e o agravamento de morbidades sistêmicas tornou-se importante e vem conquistando um espaço cada vez mais relevante no cenário da pesquisa e das observações clínicas.

Dessa forma, a compreensão desse ciclo pressupõe maior inserção da ciência odontológica no cenário multidisciplinar, conduzindo o profissional da odontologia a ser peça fundamental no controle e tratamento dos mais variados desequilíbrios metabólicos do organismo humano.

Doença de Alzheimer

Com a perda das funções cognitivas e dificuldade de manutenção da higiene bucal, portadores de Doença de Alzheimer estão mais suscetíveis a deterioração da saúde bucal. Esses pacientes possuem altas chances de desenvolverem patologias bucais associadas ao empobrecimento do cuidado oral e a hipossalivação medicamentosa. A saúde bucal precária pode levar a graves complicações de ordem local e sistêmica, por isso é muito importante a participação do cirurgião-dentista na equipe multidisciplinar, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida desses pacientes e conscientizar os familiares e cuidadores sobre a importância do cuidado bucal nesta fase da vida.

O atendimento odontológico em domicílio associado ao consultório pode servir como mais uma diferenciação profissional, principalmente quando essa união visa dar um atendimento mais amplo e adequado à população idosa dependente.

Doenças Cardiovasculares – Estudos mostram que cerca de 8% de todos os casos de endocardite infecciosa estão associadas a doenças dentárias e periodontais.

Os pacientes pré-operatórios de cirurgia cardíaca devem fornecer um padrão adequado de saúde bucal, sem a presença de infecções dentárias focais ou desencadeamento de focos infecciosos na cavidade oral, uma vez que a boca pode conter o principal microrganismo causador de endocardite infecciosa.

Mais de 80% dos casos de endocardite infecciosa são adquiridos na comunidade e as bactérias são partes da flora endógena do hospedeiro, na maioria das vezes espécies indígenas facultativas do biofilme dentário supragengival como: Streptococcus sanguis, Streptococcus milleri e Streptococcus mutans. A endocardite gerada por estas bactérias é fatal em 10% dos casos.

Os pacientes que necessitam de cirurgia cardiovascular devem ser avaliados e devem ser submetidos ao tratamento odontológico para adequação e manutenção do ambiente bucal adequado nos períodos pré e pós-cirúrgico, uma vez que a existência de um foco de infecção oral pode ser responsável por complicações sistêmicas.

Participação fundamental do cirurgião-dentista

Por serem responsáveis pelo aumento de morbidade e mortalidade, as infecções odontogênicas encontradas na vivência clínica são consideradas um grande problema de saúde pública, mesmo que essa situação tenha melhorado ao longo dos anos. É uma patologia de caráter urgente que requer do profissional um atendimento imediato, para assim evitar possíveis comprometimentos sistêmicos do hospedeiro. Porém, o estado geral de saúde sistêmica do paciente pode influenciar na disseminação e agravamento da doença dificultando o tratamento dessas infecções. Por esse motivo, ressaltamos a importância do conhecimento sobre infecções buco- maxilo-faciais graves; avaliação das características, causas, classificações, manifestações clínicas e tratamento das infecções buco-maxilo-faciais graves com o foco em celulite facial e Angina de Ludwig (mais comuns).

Diabetes

A diabetes mellitus, uma das doenças crônicas que mais acometem os pacientes idosos, merece uma maior atenção às desordens orgânicas junto com as suas repercussões na cavidade oral se faz necessária. Devido às alterações que provoca, tal distúrbio atinge níveis sistêmicos e acaba por agravar quadros decorrentes do envelhecimento fisiológico bucal.

O paciente diabético não controlado, de forma sistêmica, pode conduzir a várias complicações, e as bucais incluem: gengivite, periodontites, disfunção das glândulas salivares, xerostomia, suscetibilidade para infecções bucais, síndrome da ardência bucal, alterações no paladar e halitose.

O cirurgião-dentista precisa estar apto a reconhecer as alterações próprias do diabetes, bem como saber lidar com complicações secundárias de ordem biológica, social e psicológica que acompanham o paciente portador, para oferecer-lhe um tratamento que proporcione melhor saúde bucal, garantindo-lhes qualidade de vida e longevidade.

Insuficiência Renal Crônica

A Insuficiência Renal Crônica promove alteração na estrutura renal, o que implica na redução ou limitação da capacidade de filtração glomerular dos rins. Alterações metabólicas provenientes da deficiência renal interferem no plano de tratamento a ser proposto ao paciente. Além das manifestações sistêmicas, geram também manifestações bucais, tais como palidez na mucosa, hipoplasia de esmalte, inflamação gengival, aumento gengival, perda de inserção, xerostomia, alta prevalência de cálculo, baixo fluxo salivar.

Não se deve esquecer que pacientes submetidos à diálise são mais suscetíveis ao desenvolvimento de processos infecciosos devido à sua condição geral, com provável diminuição da eficiência do sistema imune e mascaramento dos sinais e sintomas da infecção pelas drogas utilizadas, portanto é recomendado sempre prescrever terapia/profilaxia antibiótica.

O metabolismo e eliminação de certas drogas são alteradas em casos de insuficiência renal crônica. Deve ocorrer ajuste de dose ou modificação da frequência de administração.

Gestantes

A maioria das gestantes desconhece a relevância do acompanhamento odontológico durante a gravidez. Pelas alterações hormonais que surgem nesse período, a mulher torna-se mais suscetível a desordens bucais como à doença periodontal, notadamente a hiperplasia gengival generalizada ou localizada como no granuloma gravídico.

O pré-natal odontológico é um termo pouco divulgado, porém é de muita relevância, pois objetiva-se não apenas cuidar dos dentes e gengiva das gestantes, como orientá-las sobre os cuidados que serão necessários em relação ao bebê assim que ele nascer.

Doença Hepática

Hepatopatia é definida como alteração do fígado que se dá de forma aguda ou crônica. Está associada a etiologias variadas como as hepatites virais A, B, C, D, E, Doença Hepática Gordurosa Não Alcoólica, Doença Hepática Alcoólica e Doença Hepática Autoimune.

A deficiência hepática pode causar desordens bucais relevantes para odontologia, como exemplo à presença de cárie, hipossalivação e doença periodontal. Vale a pena ressaltar a importância da integração médico-odontológica durante o tratamento de hepatopatas, ressaltando fatores importantes como ação medicamentosa, solicitação de exames laboratoriais para avaliação de níveis séricos e solicitação de exames para avaliação de coagulopatias para procedimentos cirúrgicos, através de testes como tempo de tromboplastina parcialmente ativado, tempo de protombina, tempo de trombina, contagem de plaquetas.

Oncologia

Os pacientes oncológicos devem ser examinados pelo cirurgião-dentista logo que receberem o diagnóstico da doença, e o tratamento odontológico deve ser iniciado preferencialmente antes do tratamento oncológico. O tratamento deve contemplar todas as especialidades odontológicas levando em consideração a condição clínica do paciente.  É dada ênfase às medidas preventivas e/ou curativas de adequação do meio bucal no intuito de evitar complicações decorrentes ao tipo de tratamento escolhido pelo médico. Para saber mais sobre os cuidados com pacientes oncológicos, clique aqui. 

DTM

A DTM é definida como uma coleção de condições médicas, dentárias ou faciais associadas a anormalidades do sistema estomatognático. Essas anormalidades desencadeiam disfunções na Articulação Temporomandibular (ATM) e em tecidos adjacentes, incluindo os músculos faciais e cervicais.

Para esse tratamento inicial, a utilização de procedimentos fisioterapêuticos é essencial. Não compete à fisioterapia remover a etiologia da hiperatividade muscular causada pelo estresse e tensão, o que leva o indivíduo a apertamento noturno e/ou diurno; porém, podemos agir nessa musculatura com manobras de relaxamento e reeducação postural, que promoverão grande melhora na sintomatologia, principalmente nas crises dolorosas.

É sabido que existe muito mais a ser relatado e discutido sobre odontologia multidisciplinar, porém o objetivo aqui foi dar uma pincelada nas principais condições bucais relacionadas a comprometimentos sistêmicas encontradas na pratica odontológica e que necessitam de uma abordagem ampla para humanizar e individualizar o tratamento de cada paciente.

Uma vez observada uma condição ou doença sistêmica, deve-se direcionar a avaliação, identificando as peculiaridades que podem interferir no tratamento.

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