Casos Clínicos

Tratamento de Hipersensibilidade Dentária

Tratamento de Hipersensibilidade Dentária
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Introdução

Este artigo tem por objetivo relatar um caso clínico de hipersensibilidade dentinária onde foram abordados aspectos de diagnóstico e tratamento em passo-a-passo. Diagnóstico a partir de testes de sensibilidade a ar e tratamento a partir de dessensibilizante aplicado em consultório.

Revisão de literatura

Uma das dificuldades para o clínico quando confrontado com um paciente com queixa de dor em seus dentes é que há um certo número de condições clínicas que podem provocar tal sintoma, e estas condições tem de ser eliminadas antes para um correto diagnóstico de hipersensibilidade dentinária.1

A hipersensibilidade dentinária é definida como dor derivada da dentina exposta em resposta a estímulos químicos, térmicos, táteis ou osmóticos, que não podem ser explicados como resultando de qualquer outro defeito ou doença dentária. Mais recentemente, vários pesquisadores sugerem que os Dentistas devem distinguir entre os indivíduos com queixa de hipersensibilidade dentinária que têm bocas relativamente saudáveis ​​daqueles que se queixam como resultado de doença periodontal e / ou seu tratamento. Recentemente, o termo de sensibilidade de raiz ou a sensibilidade da dentina da raiz ou hipersensibilidade dentinária radicular tem sido usado para descrever a sensibilidade resultante de doença periodontal e seu tratamento.2,4 Atualmente, no entanto, a maioria dos estudos de prevalência relatados não fazem distinção entre ambas, e, como consequência, há poucos dados sobre a condição. A importância da definição é que ela fornece uma descrição clínica muito útil da condição e sugere a necessidade de se excluir outras formas de dor de dentes ou sensibilidade.2,3

Para que ocorra a hipersensibilidade dentinária, é necessário que haja uma exposição da dentina. Essa dentina pode ser classificada como sensível ou insensível ao estímulo. Macroscopicamente, a aparência da dentina sensível e da dentina insensível são iguais. No entanto, em imagens de microscopia eletrônica de varredura, os orifícios dos túbulos dentinários em áreas hipersensíveis aparecem mais abertos, enquanto que nas áreas não sensíveis as entradas dos túbulos estão obliteradas por cristais de hidroxiapatita.5

Dor resultante de hipersensibilidade dentinária pode, contudo, ser variável em caracteres, variando em intensidade. Desde ligeiro desconforto a severidade extrema, o grau de dor experimentada por pacientes varia em diferentes dentes e em diferentes pessoas, uma vez que está relacionada com a tolerância à dor do paciente bem como aos fatores emocionais e físicos.2,3

Existem alguns métodos descritos na literatura para mensuração da dor, são métodos subjetivos e que podem ser qualificados por escores. Um exemplo é o método de sensibilidade ao ar, realizado de forma que o dente a ser analisado é isolado pela colocação dos dedos do examinador sobre os dentes adjacentes e aplicação de um jato de ar com pressão de 60 psi a uma distância de 1 cm durante 1 segundo perpendicular a face vestibular do dente. A análise é feita a partir de uma escala de sensibilidade associada à resposta ao estímulo pelo paciente. Os escores são: 0 – o paciente não responde ao estimulo; 1 – paciente responde ao estímulo, mas não pede a interrupção do mesmo; 2 – paciente responde ao estímulo, pede a descontinuação do mesmo ou se move; 3 – paciente responde ao estímulo, pede a descontinuação ou se move e afirma ter dor. Este método é simples, rápido e eficaz.6

O tratamento para a hipersensibilidade dentinária tem sido motivo de muitas pesquisas na odontologia. A grande maioria desses tratamentos fundamenta-se em técnicas de obliteração de canalículos de dentina expostos na região, promovendo um selamento que funciona como um tamponamento, isolando a superfície externa do dente do meio intraoral e evitando que os prolongamentos de fibroblastos continuem expostos, o que elimina a sensibilidade dental.7

Os tratamentos para a hipersensibilidade dentinária englobam diferentes técnicas e substâncias que podem ser empregadas tanto para o uso profissional como para o uso caseiro. No entanto, existe no mercado uma grande variedade de produtos formulados para o tratamento da hipersensibilidade dentinária, o que confunde o estabelecimento de um protocolo eficaz e resolutivo. A incorporação de fluoretos na maioria dos dentifrícios e colutórios tem se mostrado eficaz na prevenção da cárie. Algumas composições de flúor têm sido relatadas na odontologia como auxiliares na redução da hipersensibilidade, entre elas, encontram-se fluoreto de sódio, silicofluoreto de sódio e monofluorfosfato de sódio. A ação do oxalato para a obliteração dos túbulos dentinários acontece por meio de uma reação com os íons de cálcio no fluido dentinário, formando um cristal de oxalato de cálcio insolúvel de menor diâmetro, depositado nos túbulos expostos. No entanto, estudos mostram que essa molécula, por apresentar uma instabilidade em meio ácido, obteve melhores resultados para a hipersensibilidade por meio de associações a substâncias químicas, a fim de neutralizar o pH. Os sais de potássio são agentes comumente utilizados no tratamento da hipersensibilidade dentinária. Os utilizados com mais frequência são os oxalatos, nitratos e citratos. A sua ação se fundamenta no fato de que o aumento da concentração do potássio extracelular despolariza as membranas das fibras nervosas, bloqueando a passagem do estímulo e reduzindo a hipersensibilidade. Além disso, pode-se citar que os citratos apresentam uma ação quelante ao cálcio, possibilitando a obliteração tubular e diminuindo a hipersensibilidade dentinária. A hidroxiapatita, utilizada em tamanhos nanométricos para o tratamento de hipersensibilidade dentinária, penetra com maior facilidade no interior dos túbulos dentinários e das micro trincas em esmalte, promovendo um selamento de qualidade e restaurando a microestrutura e a composição química do dente. Os cristais de hidroxiapatita são altamente estáveis e mais resistentes aos desafios ácidos quando comparados aos fosfatos de cálcio amorfos, promovendo uma dessensibilização duradoura e uma remineralização eficaz.8

Relato de Caso

Paciente queixava-se de muita sensibilidade em alguns dentes. Ao exame clínico foi constatado presença de recessões gengivais em alguns dentes, os quais apresentavam sensibilidade.

Apenas a área vestibular do dente 13 (Fig. 1) não apresentava indicação de restauração, pois apesar da exposição dentinária radicular, não havia cavitação como nos demais dentes.

Optou-se pelo tratamento de dessensibilização utilizando um dessensibilizante de uso no consultório com a associação de nano partículas de hidroxiapatita de cálcio e Flúor, o Desensibilize Nano P (FGM).

Para controle do tratamento foi realizado o teste de sensibilidade a ar descrito anteriormente na revisão de literatura 6, que aconteceu da seguinte forma:

O dente a ser analisado foi isolado pela colocação dos dedos do examinador sobre os dentes adjacentes e aplicação de jato de ar com pressão de 60 psi a uma distância de 1 cm durante 1 segundo perpendicular a face vestibular do dente (Fig. 2). A análise é feita a partir de uma escala de sensibilidade associada à resposta ao estímulo pelo paciente.

A mensuração foi realizada nos seguintes momentos:

  • Antes da primeira aplicação de Desensibilize Nano P (FGM);
  • 10 minutos após a primeira aplicação;
  • 1 semana após a primeira aplicação e antes da segunda aplicação;
  • 10 minutos após a segunda aplicação;
  • 1 semana após a segunda aplicação e antes da terceira aplicação;
  • 10 minutos após a terceira aplicação;
  • 1 semana após a terceira e última aplicação.

Após a primeira mensuração, foi realizado o seguinte protocolo clínico (por 3 semanas consecutivas):

Produtos utilizados:

Desensibilize Nano P (FGM) 

Disco de feltro Diamond Flex (FGM)

Resultados

Foram encontrados os seguintes resultados (Quadro 1):

Mensuração Escores
Antes da primeira aplicação 3
10 minutos após a primeira aplicação 1
1 semana após a primeira aplicação e antes da segunda aplicação 1
10 minutos após a segunda aplicação 1
1 semana após a segunda aplicação e antes da terceira aplicação 1
10 minutos após a terceira aplicação 1
1 semana após a terceira e última aplicação 1

Quadro 1: Resultado da análise a partir de uma escala de sensibilidade associada à resposta ao estímulo pelo paciente. Teste de sensibilidade ao ar frio. Os escores são: 0 – o paciente não responde ao estimulo; 1 – paciente responde ao estímulo, mas não pede a interrupção do mesmo; 2 – paciente responde ao estímulo, pede a descontinuação do mesmo ou se move; 3 – paciente responde ao estímulo, pede a descontinuação ou se move e afirma ter dor. 6

Conclusão

A hipersensibilidade é uma sintomatologia que pode ser tratada. O tratamento se inicia na orientação ao paciente quanto a hábitos de higiene, hábitos para-funcionais, diminuição da ingestão de alimentos ácidos, etc, bem como o adequado acompanhamento do tratamento pelo cirurgião-dentista de acordo com a gravidade do problema.

Há muitos materiais sendo utilizados para o tratamento da hipersensibilidade dentinária, como fluoretos, nitratos, citratos, oxalatos e hidroxiapatita. Os materiais dessensibilizantes são apresentados em diferentes concentrações e modos de aplicação, como dentifrícios, colutórios, vernizes e géis.

Neste caso relatado, obtivemos um resultado favorável com relação ao potencial de dessensibilização do Desensibilize Nano P (FGM) desde a primeira aplicação do produto e após as 3 semanas de uso. Demonstrando ser uma boa opção de tratamento dessensibilizante em consultório.

Referências

  1. David G. Gillam (2013) Current diagnosis of dentin hypersensitivity in the dental office: an overview. Clin Oral Invest 17 (Suppl 1):S21–S29.
  2. Addy M (2000) Dentin hypersensitivity: definition, prevalence distribution and etiology. In: Addy M, Embery G, Edgar WM, Orchardson R (eds) Tooth wear and sensitivity. Martin Dunitz, London, pp 239–248.
  3. Gillam D, Orchardson R (2006) Advances in the treatment of root dentin sensitivity: mechanisms and treatment principles. Endod Top 13:13–33
  4. Troil BV, Needleman I, Sanz M (2002) A systematic review of the prevalence of root sensitivity following periodontal therapy. J Clin Periodontol 29(Suppl 3):173–177.
  5. Addy, M.; Mostafa, P. (1989) Dentine hipersensitivity II: effects produced by the uptake in vitro of tooth paste onto dentine. J Oral Rehabil., v.16, n.1, p.35-48.
  6. Hongchun Liu and Deyu Hu (2012) Efficacy of a Commercial Dentifrice Containing 2% Strontium Chloride and 5% Potassium Nitrate for Dentin Hypersensitivity: A 3-Day Clinical Study in Adults in China Clinical Therapeutics 34(3): 614-622.
  7. Lussi A. Dental erosion: from diagnosis to therapy. Karger Ed., 2006.
  8. Eliane Ramos Toledo de Carvalho, Helio Rodrigues Sampaio Filho, Fernanda Pitta Ritto, Raimundo Alexandre da Silveira Vidigal Lacerda, Renato Mayhe e Elizabeth Peixoto Nunes (2013) Hipersensibilidade dentinária e seu manejo clínico PRO-odonto prevenção. 6(3):9-37.

Autores:

CD Letícia de Souza Lopes – Graduanda em Odontologia pela UERJ, membro do PET-UERJ, monitora da disciplina de Materiais Dentários.

Profa. Mestra Fernanda Signorelli Calazans – Especialista em Dentística pela UFRJ, Mestre e Doutoranda em Odontologia-Dentística pela UERJ, Professora dos cursos de Especialização e de Atualização em Dentística do Instituto de Odontologia PUC-Rio, Professora substituta da clínica integrada UERJ.

Prof. Dr. Mauro Sayão de Miranda – Professor associado UERJ e UFRJ, coordenador do curso de doutorado em Odontologia-Dentística da UERJ, coordenador dos cursos de Dentística do IO PUC-Rio.

Fonte: FGM

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