Ortodontia

Vamos falar de fios ortodônticos?

Vamos falar de fios ortodônticos?
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Fios elásticos, superelásticos, com cobre, termoativados, aço, multifilamentados, curva reversa. Por onde começar? Quando, como e por que usar determinados arcos? O conhecimento, para o ortodontista, sobre as características mecânicas dos fios ortodônticos é fundamental e sua seleção deve ser feita de acordo com o seu comportamento.

Para abordar este assunto, de uma maneira mais didática, vamos dividir a informação em tópicos, trazendo situações da rotina ortodôntica. Embasando nos tais conceitos ou características mecânicas mencionadas acima.

Partindo do princípio fisiológico onde forças leves e contínuas são desejáveis para obtenção do movimento dentário em seus tecidos adjacentes. Vamos às nossas rotineiras situações clínicas:

Correção de Apinhamento Dentário

Após o diagnóstico, planejamento e promoção de espaços, chega o momento do alinhamento. Qual fio escolher?
Dentes girovertidos, inclinados e apinhados, para serem corrigidos de uma maneira biológica, precisam de fios com maior elasticidade e menos carga na deflexão. Qual seriam eles? As ligas de níquel-titânio (Ni-Ti), são escolhas ideais, por apresentarem superelasticidade e memória de forma. Estas, apresentam variações durante o processo de fabricação (superelásticos, termodinâmicos e com adição de cobre).

Os elásticos, superelásticos e termoativados em diminutos calibres redondos, são ótimos para essa fase inicial. Por apresentar resiliência e formabilidade.

Carga x Deflexão: se um fio for flexionado para incluir no arco um dente que está desnivelado, haverá maior carga acumulada. Quanto maior a distância de deflexão, há maior carga acumulada.

Módulo de Elasticidade: conhecendo o gráfico de um determinado fio (também seu calibre e material), pode-se avaliar o quanto de força será liberada para cada milímetro de ativação. Bem como o seu limite de elasticidade, ou seja, o quanto suportará de deflexão sem sofrer uma deformação permanente. Aqui entram as propriedades:

Superelasticidade: o fio superelástico apresenta duas fases estruturais. Enquanto a liga está no regime elástico, comporta-se de maneira convencional. Esta fase é caracterizada por uma estrutura austenítica. Quando o seu limite “pseudoelástico” é ultrapassado, a liga sofre deformação maior, entretanto com um acúmulo de carga quase constante. Nesta fase a estrutura torna-se martensítica, ditando este comportamento atípico. Como toda liga superelástica apresenta memória de forma, na desativação o fio é capaz de retornar tanto à forma como à estrutura original.

Memória de Forma: capacidade do fio de retornar a sua forma e estrutura original. Quando isto ocorre, o fio dispersa a energia (carga) acumulada. Este conceito confunde-se com a superelasticidade, pois as mudanças drásticas de forma e estrutura que ocorrem nos fios com esta característica, resultam em maiores amplitudes de deformação e subsequente retorno à forma e estrutura original. Esta propriedade, portanto, apresenta-se mais evidente nos fios de Níquel-Titânio que sofrem a transformação martensítica.

Cobre: em meados da década de 90, os fios de níquel-titânio com adição de cobre (CuNiTi) surgiram no mercado. Os mesmos são compostos, basicamente, por níquel, titânio, cobre e cromo. Devido à incorporação de cobre, apresentam propriedades termoativas mais definidas do que os fios superelásticos de NiTi, e permitem a obtenção de um sistema ótimo de forças, com controle mais acentuado do movimento dentário.

Tracionamento de canino incluso

Para se tracionar um canino incluso, devemos lançar mão de ancoragem e fios acessórios. Podemos, aqui, utilizar como ancoragem uma barra transpalatina ou arco lingual (se superior ou inferior). Pensando em aplicar aqueles conceitos importantes, para se desenvolver esse aparelho ou tipo de ancoragem precisamos que o fio tenha rigidez, soldabilidade e alto módulo de elasticidade. Nada melhor que o aço redondo com calibre aumentado.

Geralmente utilizamos o fio .080” ou .090”. E do dispositivo de ancoragem, que certamente pode(m) ser o(s) microparafuso(s) também, deve sair uma extensão de fio até o elemento, denominado de cantiléver. Um fio retangular que tenha propriedades semelhantes ao do aço, porém com elasticidade, para alcançar uma excelente força de trabalho do tracionamento. O de eleição aqui será o Fio Vareta TMA, por exemplo. Mas porque o TMA? Explicaremos no próximo exemplo.

Rigidez: quanto maior o módulo de elasticidade mais rígido será o fio. Então, os fios mais flexíveis ou menos rígidos apresentam valores menores.

Soldabilidade: como o próprio nome diz, a soldabilidade é a capacidade da liga em receber soldas, elétrica ou de prata. O fio de aço, por exemplo, apresenta incrível soldabilidade tanto para solda de prata como para a elétrica. Já́ o Titânio-Molibidênio somente recebe solda elétrica, enquanto o Níquel-Titânio não aceita soldas 26.

Molar inclinado

Aqui podem ser aplicados os mesmos exemplos do canino incluso, tanto no quesito ancoragem, como no do fio acessório. Mas podemos complementar informações, para vocês continuarem entendendo os conceitos físicos dos fios, no caso, ainda sobre o TMA: para desinclinar o molar, evitando ao máximo reações no arco contínuo, o ideal é utilizar fios acessórios ou mecânicas segmentadas. Pode-se, então, entrar com os arcos retangulares também como o TMA. Mas porque o TMA? A grande vantagem desta liga é a resiliência, associada a uma moderada formalidade. Em comparação ao aço inoxidável, o TMA apresenta a metade da rigidez, consequentemente o dobro de resiliência.

Resiliência: Definida como a quantidade de energia (tensão) acumulada por uma liga até o seu limite elástico. Esta energia pode ser calculada pela área gráfica do seu regime elástico. Um fio muito resiliente apresenta uma fase elástica longa, portanto pode ser defletido mais, sem que sofra uma dobra permanente.

Formabilidade: Capacidade da liga deformar-se no regime plástico, sem sofrer fratura, permitindo o uso de suas propriedades quando submetido a uma deflexão subsequente.

Correção de sobremordida profunda

O arco utilidade é confeccionado com fio Elgiloy azul 0,016” x 0,016” fornecido pelos fabricantes em formato de varetas. Esta liga foi desenvolvida pela Elgin Watch Company e contém 40% de cobalto, 20% de cromo, 15% de níquel, 15,8% de ferro, 7% de molibdênio, 2% de manganês, 0,16% de carbono e 0,04% de berílio 13.

Introduzida no mercado pela Rocky Mountain Orthodontics, esta liga é fabricada em quatro têmperas, diferenciadas uma das outras pelas cores azul, amarelo, verde e vermelho em suas extremidades. Para confecção do arco utilidade, o fio indicado é o de ponta azul 0,016” x 0,016” sem tratamento térmico. Este fio tem a capacidade de gerar 2.000 gramas de força por milímetro quadrado, suficiente para movimentar um molar 21.

Torque

Chega o momento de se desenvolver a leitura dos bráquetes pré-torqueados. O atrito ou fricção aqui são características importantes. Então o fio de eleição será retangular e de aço.

Atrito: na ortodontia corresponde à qualidade de deslize entre o fio ortodôntico e o encaixe (slot) do acessório (bráquete ou tubo). O atrito é medido no início (atrito estático) e durante a movimentação (atrito cinético). Obviamente nas mecânicas de deslize, deseja-se um baixo nível de atrito.

Intercuspidação

Os fios multifilamentados de aço, de seção retangular serão os de eleição. Pois embora continuem apresentando as dimensões dos retangulares, os multifilamentos trazem mais leveza e resposta no momento da finalização. Possuem propriedades mecânicas que diferem bastante daquelas do aço convencional, mesmo quando comparados aos diâmetros próximos. Possuem recuperação elástica 25% maior do que a do aço convencional e uma rigidez dos segmentos inter-braquetes bem menor. Apresentam também a quinta parte do módulo de elasticidade e uma faixa de ativação de 150 (cento e cinquenta) a 200 (duzentas) vezes maior quando comparados aos da liga convencional.

Contenção

Aqui, podemos lançar mão de contenção higiênica ou reta. Qual é melhor? Podemos abordar este assunto, em uma próxima matéria. O que acham? Mas falando sobre o tipo de fio, pode ser feito com fio twistflex, também multifilamentado de aço redondo, embora não seja meu predileto, é comumente utilizado. Este fio, em pequeno diâmetro, também foi muito utilizado, no início da fase de nivelamento, na técnica Edgewise. Falando em diâmetro, vamos à última parte da matéria, falar sobre eles.

Depois de falar um pouco sobre os tipos de ligas, vamos aos diâmetros dos fios

Temos basicamente a seguinte sequência de arcos, independente de seu tipo de material.

Os arcos redondos. Começando do menor calibre ao maior. Quanto mais necessidade de deflexão e elasticidade, menor o calibre requisitado: .010”/ .012”/ .013”/ .014”/ .016”/ .018”/ .020”

Os arcos retangulares. Chegamos em uma fase mais avançada, onde a elasticidade é dispensada e chega a necessidade de características de formabilidade para se fazer dobras e atrito, para leitura de torques e angulações: .016”x.022”/ .017”x.025”/ .018”x.025”/ .019”x.025/ .021”x.025”

Os arcos quadrados. Estes são utilizados para mecânicas segmentadas, como exemplo o arco utilidade ou base de Ricketts.: .016”x.016”/ .019”x.019”

Por que a força excessiva é ruim? Toda força que excede a pressão sanguínea capilar, reduz a celularidade do ligamento periodontal de modo que o movimento dentário retarda, simplesmente para, e pode trazer injúrias aos tecidos. Conhecendo as ligas disponíveis, a seleção fica mais fácil.

Espero que tenham gostado! Até a próxima.

Seguem referências bibliográficas, para aprofundamento no tema:

Macena MCB, Sá Catão CD, Rodrigues RQF, Vieira JMF. FIOS ORTODÔNTICOS, PROPRIEDADES MICROESTRUTURAIS E SUAS APLICAÇÕES CLÍNICAS: VISÃO GERAL. REVISTA SAÚDE E CIÊNCIA On line, 2015; 4(2): 90-108.

Quintão C. Brunharo I. Fios Ortodônticos. Conhecer para otimizar a aplicação clínica. R Dental Press Ortodon Ortop Facial. Maringa 14(6):144-57. 2009

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  • Thalita Galassi

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    Cirurgiã- dentista. Especialista em Ortodontia. Pós-graduada em Dentística Estética. Mestre em Ciências da Reabilitação HRAC USP. Professora de Especialização em Ortodontia - SPO. Palestrante, escritora e consultora técnico-científica em Ortodontia. Membro da Comissão de Mídias Sociais CROSP. Diretora Social da Sociedade Paulista de Ortodontia Mídias Sociais. On-line, compartilhando odontologia desde 2013.
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