Anestésicos odontológicos: quais são e como utilizá-los?

Este material é voltado aos cirurgiões-dentistas habilitados ao exercício da sua profissão, possui caráter apenas informativo, não se trata de artigo científico – todas as informações prestadas são encontradas nas referências bibliográficas disponibilizadas ao final do conteúdo. 

Nessa matéria, você vai conhecer um pouco mais sobre os Anestésicos Odontológicos, esclarecendo as principais dúvidas e mitos que envolvem o assunto.

Procedimento odontológico sendo realizado com ferramentas de dental. Profissional com luvas aplica tratamento em paciente no consultório.

O que é um anestésico?

Parece uma pergunta simples, não é? Mas existem tipos de anestésicos para diferentes finalidades.

Quando falamos de seu uso na Odontologia, é importante esclarecer que utilizamos os anestésicos locais, os quais bloqueiam a transmissão do impulso nervoso a um nível local, ou seja, apenas na região em que é aplicado, tendo uma ação reversível e não ocasionando perda de consciência.

Quais são os anestésicos mais utilizados na Odontologia?

A Lidocaína, Mepivacaína, Prilocaína, Articaína e Bupivacaína são os sais anestésicos disponíveis no mercado nacional.

O efeito anestésico da maioria deles gira em torno de 60 minutos, podendo chegar a até 90 minutos de anestesia pulpar, sendo classificados como uma duração intermediária.

Somente a Bupivacaína tem uma duração maior, podendo durar até 3 horas.

A Lidocaína foi o primeiro anestésico tipo amida introduzido em 1948 e continua sendo o sal mais utilizado e difundido em todo o mundo até os dias de hoje.

Já a Articaína, é considerado o sal mais moderno, por ter em sua molécula um anel tiofeno o que garante sua maior lipossolubilidade, aumentando a difusão através dos tecidos e a sua potência.

Além disso, a Articaína tem uma maior ligação proteica, o que aumenta o tempo de duração da anestesia. Vale ressaltar que esse sal chegou ao Brasil por volta de 1999 e foi desenvolvido especificamente para fins odontológicos.

Como escolher o anestésico odontológico ideal para cada procedimento?

A escolha da solução anestésica ideal para cada tipo de procedimento irá depender de diversos fatores, como:

  • Duração do procedimento;
  • Necessidade de controle da dor após o procedimento;
  • Início de ação do sal anestésico;
  • Tipo de anestesia: terminal, regional ou troncular;
  • Nível de toxicidade, a fim de evitar intercorrências;
  • Necessidade de hemostasia – como o uso de vasoconstritores em procedimentos cirúrgicos, por exemplo.
  • Contraindicações absolutas ou relativas da solução anestésica;
  • Condições sistêmicas do paciente;
  • Dose máxima recomendada, independentemente do peso.

Como calcular a dose máxima de anestésicos?

Após avaliar as particularidades de cada caso e paciente, assim como as características do anestésico de escolha adequado, o próximo passo é calcular a dose máxima do sal anestésico.

Para isso, o profissional deve considerar a concentração da solução anestésica a ser utilizada, o peso do paciente e a dosagem máxima recomendada de cada substância.

Na tabela a seguir, com dados estabelecidos pela literatura, é possível consultar os valores de dose máxima por kg de peso corporal e dose máxima absoluta.

Tabela com doses máximas recomendadas de anestésicos locais, incluindo medicamentos como articaína, lidocaína e bupivacaína, com suas respectivas dosagens e recomendações.

1º Passo – Calcule quantos mg de anestésico estão presentes em cada tubete.

Ex: Lidocaína 2%.

Como a lidocaína tem percentual de 2%, significa que há 20 mg de Lidocaína em 1ml do anestésico.

Considerando que cada tubete possui, 1,8ml de solução, é preciso fazer uma regra de três para conferir quantos mg de lidocaína estão presentes no tubete.

20 mg ——————— 1 ml

X

X mg———————1,8 ml

Valor de X = 36mg. Ou seja, no tubete há 36mg de sal anestésico.

2º Passo – Calcule a dose máxima de anestésico que o paciente pode receber (em mg), de acordo com seu peso.

O próximo passo é localizar a dosagem máxima por peso (mg/kg), definida pela literatura (tabela 1) ou descrita na bula do anestésico.

No caso da Lidocaína 2%, o valor é de 4,4 mg por kg. Então, podemos fazer novamente uma regra de três para conferir quantos mg podemos usar, de acordo com o peso do paciente.

Se o paciente pesa 50kg, por exemplo, calcula-se:

4,4 mg——————1 kg

X

X mg———————50 kg

Valor de X = 50mg. Ou seja, deve-se utilizar 220 mg de anestésico para esse paciente.

3º Passo – Por último, determine o número máximo de tubetes que podem ser aplicados no paciente, de acordo com seu peso.

Para isso, faça novamente uma regra de três simples:

1 tubete —————— 36 mg

X

X tubetes ——————-350 mg

Valor de X= 6. Neste caso, o paciente pode receber no máximo 6 tubetes de anestésico.

Vasoconstritor nos anestésicos odontológicos

Todos os anestésicos causam vasodilatação, o que facilita a absorção do anestésico para a corrente sanguínea, mas diminui a sua ação local e aumenta a toxicidade para o organismo.

Por isso, um vasoconstritor é adicionado às formulações com o objetivo de aumentar o tempo de duração da anestesia, diminuir o risco de toxicidade sistêmica e melhorar o campo visual do dentista (hemostasia).

Guia completo para dentistas sobre anestésicos locais

Qual o vasoconstritor mais utilizado?

A epinefrina (adrenalina) é o vasoconstritor mais potente e amplamente utilizado na odontologia, atuando diretamente nos receptores α e β adrenérgicos, onde os efeitos β predominam, sendo o mais seguro contra necrose tecidual e promovendo excelente hemostasia.

Por ser o vasoconstritor mais potente, pode ser utilizado mais diluído na solução. No Brasil, encontramos a epinefrina na diluição de 1: 100.000 (0,01 mg/ml) ou 1: 200.000.

Podemos ainda encontrar outros vasoconstritores menos potentes como, a norepinefrina com 25% da potência da epinefrina, e a fenilefrina, com apenas 5% da potência da epinefrina.

Assim, para que esses vasoconstritores possam ter uma eficácia próxima à da epinefrina, devem estar muito mais concentrados na solução.

Já a felipressina, que está associada ao sal Prilocaína, tem efeitos mais acentuados na microcirculação venosa não tendo efeitos diretos no miocárdio (sendo uma opção para cardíacos), entretanto esta não tem uma boa ação hemostática.

Além disso, por apresentar ações ocitócicas, seu uso é contraindicado a pacientes gestantes.

Em caso de pacientes com comprometimento cardíaco, qual anestésico usar?

O evento mais perigoso para cardiopatas e outros pacientes com necessidades especiais é a dor repentina durante o tratamento odontológico. Isso também se aplica a pacientes considera¬dos saudáveis, porém com menor risco.

Diante do estresse causado pela dor, pacientes de risco podem sofrer eventos como picos de pressão arterial, acidentes vasculares e infarto do miocárdio.

Portanto, não se justifica a exclusão do vasoconstritor em pacientes com doença cardiovascular leve a moderada e estáveis.

Nesses casos pode-se aplicar até 2 tubetes de anestésico com epinefrina (1:100.000) com injeção lenta e aspiração negativa, garantindo que não se esteja injetando dentro do vaso.

Quando utilizar um anestésico sem vasoconstritor?

Levando em consideração tudo o que foi explicado anteriormente, sobre a importância dos vasoconstritores, sabemos que um anestésico sem vasoconstritor tem seu tempo de anestesia diminuído e aumenta-se o risco de toxicidade aos pacientes, sem falar na dificuldade operatória em cirurgias, por não promover hemostasia.

No entanto, a melhor opção sem vasoconstritor seria a Mepivacaína, pois é o sal que promove a menor vasodilatação, com a duração da anestesia variando de 20 a 40 minutos.

Sendo essa uma opção mais viável para os pacientes alérgicos aos sulfitos, ou seja, que não podem utilizar vasoconstritores do tipo epinefrina, norepinefrina e fenilefrina, por possuírem o metabissulfito de sódio, agente antioxidante desses vasoconstritores.

Uma outra opção para esses pacientes seria a Prilocaína com felipressina (amina não simpatomimética).

Saiba mais sobre o uso de vasoconstritores assistindo este material:

Quais anestésicos devem estar disponíveis no meu consultório?

Sugere-se que vários anestésicos estejam disponíveis, pois a natureza da prática odontológica é o que ditará a sua necessidade.

No entanto, alguns fatores devem ser analisados ao tomar essa decisão, como por exemplo a duração da anestesia.

Se você é um dentista pediátrico, não tem necessidade de anestésicos de longa duração, o que já muda no caso de cirurgiões buco maxilofaciais, que precisam de anestésicos com uma maior duração.

Além disso, é importante pensar em pacientes com algum tipo de restrição, e considerar uma opção de anestésico que atenda a eles também, como a Mepivacaína sem vaso ou Prilocaína com Felipressina.

Em todo caso, a Lidocaína com epinefrina continua sendo o anestésico mais usado e difundido em todo o mundo sendo sempre uma primeira opção interessante na rotina clínica.

A Articaína também é uma opção muito promissora e eficaz sendo uma excelente escolha.

Quais são os princípios básicos para uma técnica anestésica de qualidade?

Controle da ansiedade do paciente

O controle adequado da ansiedade do paciente é muito importante para uma anestesia eficaz e segura.

A ansiedade está correlacionada a um aumento da sensação dolorosa durante a injeção e a uma dimi¬nuição na eficácia da anestesia.

Injeção lenta

Deposite lentamente a solução anestésica com o bisel da agulha voltado para o osso.

A velocidade ideal de injeção é de 1ml/min, ou seja, um tubete de 1,8ml exige aproximadamente 2 minutos para ser depositado.

Realizar esse processo com calma e respeitando a velocidade ideal gera mais segurança e mais conforto ao paciente.

Prevenção da injeção intravascular
A aspiração sempre deve ser realizada antes de depositar qualquer volume de solução anestésica, em qualquer área.

Para aspirar, é preciso criar uma pressão negativa no tubete ou usar uma seringa autoaspirante. Se houver presença de sangue dentro do tubete, o local de aplicação deve ser alterado.

A aplicação do anestésico diretamente no sistema cardiovascular pode causar superdosagem.

Vale reforçar que, essas são apenas algumas informações importantes para o momento da escolha de um anestésico local.

É muito importante que a bula do medicamento seja consultada antes de seu uso, assim como o cuidado e conhecimento em relação à dose máxima a ser administrada para cada paciente.

A DLA Pharma, empresa do Grupo Septodont disponibiliza alguns materiais de apoio para que você possa se aprofundar um pouco mais neste assunto, assim como a bibliografia abaixo.

Assista nossa webserie “Gerenciando a dor na sua prática diária” sobre manejo e controle da dor:

Profª Ms Rafaella Ronchi Zinelli

Consultora técnica DLA Pharma/Grupo Septodont Brasil
Bacharel em Odontologia – Universidade Federal do Paraná (UFPR)
Especialista em Endodontia- Instituto de pós-graduação e Biopesquisas (THUM)
Mestrado em Odontologia Clínica- Universidade Positivo (UP)
Doutoranda em Endodontia – Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Bibliografia consultada:
1. BAJWA SJ, JINDAL R. Use of Articaine in loco-regional anesthesia for day care surgical procedures. J Anaesthesiol Clin Pharmacol. 2012 Oct;28(4):444-50.
2. DOYLE DJ, HENDRIX JM, GARMON EH. American Society of Anesthesiologists Classification. 2023 Aug 17.
3. MALAMED, SF. Manual de Anestesia Local. 6a. Ed. Elsevier, 2013.
4. VAN WIJK AJ, HOOGSTRATEN J. Anxiety and pain during dental injections. J Dent. 2009 Sep;37(9):700- 4. doi: 10.1016/j.jdent.2009.05.023. Epub 2009 May 27.

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