Biossegurança

Contaminação da água nos equipos: como prevenir?

Contaminação da água nos equipos: como prevenir?
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Você sabia que a irrigação da turbina de alta rotação pode determinar sérios problemas de saúde ao paciente devido a contaminação? É isso mesmo! Quando falamos do manejo da água utilizada no reservatório do seu equipamento, é preciso estar bem atento.

Ela pode ser uma grande fonte de contaminação, apesar de estar “aparentemente” limpa e cristalina! Nesse artigo, você vai conferir algumas medidas para evitar esta contaminação invisível. Vamos lá?

A verdade nas evidências científicas da contaminação

Durante a prática clínica, a água pode ser ingerida pelo paciente, entrando em contato com a mucosa e/ou dentes. Além disso, pode ocorrer o acesso direto ao tecido conjuntivo com possibilidade de absorção e alcance do sistema circulatório. Portanto, sua contaminação apresenta grandes riscos de infecções, além de ser incompatível com práticas adequadas de higiene e controle de contaminação cruzada.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a água pode ser o veículo de transmissão de inúmeros microrganismos. Desse modo, podemos citar as bactérias (Escherichia coli, Leptospira, Legionella spp., Salmonella typhi), vírus (enterovirus, hepatite A, Hepatite E, Rotavírus), protozoários (Cryptosporidium hominis/ parvum, Entamoeba histolytica, Giardia intestinalis) e Helminto (Schistosoma spp).

Correlação entre a infecção letal de um paciente e a água do equipo

Uma paciente de 82 anos, sexo feminino, sem doenças de base, foi admitida na unidade de terapia intensiva de um hospital na Itália com febre e problemas respiratórios. No entanto, veio a falecer dois dias depois. Sua morte foi atribuída à pneumonia (Legionella spp.) e a fonte de infecção foi a linha de água do equipo de seu dentista. Esse diagnóstico foi confirmado por três métodos microbiológicos.

Mais recentemente, em 2016, nos estados da Geórgia e Califórnia (EUA), foram reportados casos de crianças de 3 a 11 anos de idade, que foram hospitalizadas com consequências sistêmicas resultantes de infecção por Mycobacterium abscessus. O surto foi causado pela água contaminada do equipamento odontológico, utilizada durante pulpotomias.

No equipamento odontológico, as tubulações por onde a água passa são denominadas linhas de água. Desse modo, são constituídas por longas superfícies internas plásticas de lúmen reduzido (tubulações com cerca de 10m de extensão e 0.5 a 1.0mm de diâmetro). Estas características quando associadas à estagnação de água durante a maior parte do tempo e imperfeições internas microscópicas, configuram um ambiente favorável para o estabelecimento de microrganismos já presentes na água.

Assim, a consequente formação das películas de biofilme é diretamente responsável pela contaminação de água. Com o desenvolvimento do biofilme, microrganismos planctônicos e subprodutos são liberados dentro da água diretamente na boca dos pacientes durante os procedimentos odontológicos.

Com que água devo abastecer o reservatório do equipamento?

A água mais indicada para uso na odontologia deve ser esterilizada ou destilada. Portanto, em cirurgias a água não deve percorrer as tubulações internas do equipamento odontológico, sob o risco de contaminação com o biofilme existente nas tubulações. Dessa forma, a água é esterilizada, sendo disponibilizada a partir de suprimento externo, sob controle quanto à esterilização dos equipamentos.

Apesar de ser empregada em diversas cadeiras odontológicas, a água mineral não é indicada para uso clínico. Evidências científicas apontam um valor médio do teor de cloro abaixo do limite mínimo proposto pela legislação brasileira. Como não há íons cloro livres, a água mineral torna-se ineficaz na prevenção da contaminação e formação de biofilmes no interior do reservatório.

É preciso adicionar cloro à água?

No Brasil, a qualidade da água para consumo humano e seu padrão de potabilidade seguem as normas definidas pelo Ministério da Saúde, devendo possuir o teor de cloro mínimo de 0,5 mg/L. Desse modo, a água empregada nos procedimentos odontológicos não cirúrgicos segue os indicadores da norma.

Entretanto, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), órgão brasileiro responsável pela regulação de produtos e serviços relacionados à saúde da população, faz recomendação para inclusão de um suprimento adicional de cloro à água utilizada no reservatório do equipamento odontológico, na proporção de 0,3 ml de hipoclorito de sódio a 1% para 500ml de água.

O que fazer com as linhas de água?

A formação de biofilme no interior das linhas de água representa um desafio para o cirurgião dentista. Fora do Brasil, existem vários compostos indicados para remover, inativar ou inibir a sua formação. Um exemplo são os tabletes adicionados ao reservatório de água, de composições diversas (prata, clorexidina, peróxido de hidrogênio ou derivados botânicos).

Sem dúvida, dificilmente o cirurgião-dentista brasileiro terá acesso à esses produtos, visto que são raros e inacessíveis (caros). Além disso, os fabricantes nacionais de equipamentos odontológicos  raramente fornecem instruções sobre os cuidados relacionados às linhas de água.

Saiba como proceder para evitar a contaminação:

  1. Após cada atendimento clínico, acione as peças de mão por 20 segundos, de modo a fazer fluir a água nos equipamentos. Esse procedimento deverá ser feito no início e no final do dia, visto que irá expulsar os materiais contaminantes provenientes da mucosa bucal que porventura entraram nas tubulações de ar, água e nas próprias turbinas;
  2. Esterilize as peças de mão! Sem dúvida, essa medida é essencial para anular a contaminação cruzada propiciada por microrganismos presentes em seu interior ou superfície.
  3. Realize a drenagem diária das linhas de água e manutenção a seco durante à noite e nos fins de semana. O ambiente úmido propicia a manutenção e o crescimento microbiano no interior das tubulações.
  4. Estabeleça uma rotina de limpeza do reservatório de água, com periodicidade mensal, com água e sabão, bem como a desinfecção com hipoclorito de sódio a 1%, por 30 minutos. Em seguida, promova o enxágue abundante.

O que era invisível está nítido para você agora? Esperamos que sim! Neste mês da Biossegurança, reveja seus conceitos, atualize-se e dedique maior atenção para a qualidade da água utilizada nos equipamentos. Com isso, garanta uma consulta segura para os seus pacientes!

Abraços biosseguros!

Fábio Barbosa de Souza – MBA, MSC, PhD
Professor de Biossegurança e Coordenador da Comissão de Biossegurança do Curso de Odontologia da Universidade Federal de Pernambuco
Membro do Grupo Geração Biossegurança

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