Descomplicando os Sistemas Adesivos Convencionais: Parte I

É impossível não falar de sistemas adesivos sem destacar a grande importância desta etapa, que revolucionou a forma de pensar na odontologia atual. A adesão entre os tecidos dentários e os materiais restauradores, especialmente resinas compostas e cerâmicas, sempre se fez presente no dia a dia dos cirurgiões dentistas. Para melhor aprendizado, este assunto será dividido em duas partes, destacando dois grupos que fazem parte dos sistemas adesivos odontológicos, os convencionais e os auto condicionantes.

Para melhor compreensão das interações adesivas com os substratos dentário é necessário revisar algumas bases fundamentais, como a capacidade de molhamento e energia livre de superfície.

  • Um bom molhamento depende do ângulo de contato entre os tecidos dentários e o adesivo, quanto menor o ângulo de contato entre eles, melhor a capacidade de molhamento, e assim maior a adesão.
  • Já a energia livre de superfície dos substratos dentários, está diretamente relacionada a sua capacidade de interagir com o adesivo, estruturas com alta energia livre de superfície tem melhor molhamento do adesivo.
  • Para aumentar a capacidade dessa interação, é necessária uma superfície limpa, e obtida através de profilaxia, sem pastas a base de óleos, e condicionamento ácido.
  • Outro fator fundamental, é o controle da umidade, os sistemas adesivos em geral são muito sensíveis a ela, uma solução para isso é o uso de isolamento absoluto do campo operatório.

Os sistemas adesivos convencionais podem ser classificados como de 3 passos e de 2 passos. Em ambos, faz- se necessário o condicionamento ácido, com ácido fosfórico a 37%, porém nos sistemas de 3 passos o primer é aplicado separadamente do adesivo (Bond), em frascos individuais. Já nos de sistemas de 2 passos, o primer e o adesivo são apresentados em frasco único, com o intuito de reduzir o tempo operatório. A seguir, vamos especificar as etapas para executar com sucesso os sistemas adesivos convencionais.

Condicionamento ácido no sistema adesivo:

No esmalte, o condicionamento irá promover uma desmineralização superficial do esmalte, resultando em microrretenções, aumentando a energia livre de superfície e o molhamento, assim o adesivo terá uma maior área de contato com o esmalte.

  • É realizado com ácido fosfórico a 37%, devendo permanecer por 30 segundos;
  • Após, lavar abundantemente com água pelo mesmo tempo;
  • Remover o excesso de água com suaves jatos de ar, mantendo a superfície seca, neste momento ter cuidado para não atingir a dentina com os jatos de ar, para não a desidratar.

Na dentina, a principal função é a remoção da lama dentinária (Smear-Layer), acompanhada da dissolução superficial da dentina e exposição dos túbulos dentinários e fibras colágenas.

  • O condicionamento também é realizado com ácido fosfórico a 37%, porém pelo tempo de 15 segundos. Um tempo de exposição maior pode ocasionar um sobrecondicionamento ácido, neste caso, a profundidade de desmineralização na dentina pelo ácido, será maior do que a infiltração do adesivo. Desta forma, as regiões mais profundas dos túbulos dentinários não serão preenchidas com adesivo, e sim com fluidos dentinários, comprometendo a adesão e causando sensibilidade pós-operatória em dentes vitais.
  • Em seguida, lavar abundantemente com água pelo dobro do tempo;
  • A remoção do excesso de água na dentina é diferente do esmalte, deve ser realizado com bolinhas de papel absorvente, pois as fibras colágenas necessitam de uma certa umidade para preservar sua configuração espacial, caso seja seca com jatos de ar, poderá desidratar, colapsando a rede de fibras colágenas, e assim impedindo a infiltração do adesivo pelos túbulos dentinários.

Primer para o sistema adesivo:

A dentina pós condicionada apresenta umidade, além de maior teor orgânico, resultando em baixa energia livre de superfície, o oposto do esmalte, o que representa um desafio para a adesão. A solução deste problema, está com a aplicação do PRIMER na dentina, um agente composto por monômeros bifuncionais hidrofílicos e hidrófobos (afinidade química pelo adesivo), promovendo um controle no excesso de umidade dentinária, estabilizando as fibras colágenas, com aumento da energia livre de superfície e do molhamento, concluindo, melhora a interação entre o adesivo e a dentina.

  • Nos SISTEMAS ADESIVOS CONVENCIONAIS DE 3 PASSOS, o primer (frasco individual), deve ser aplicado com fricção na dentina, utilizando um Microbrush, por 30 segundos, sem excessos; não há necessidade de fotopolimerização e de aplicação do primer no esmalte, já que o mesmo possui alta energia livre de superfície, mas caso contrário, não interfere na adesão do mesmo.
  • Já nos SISTEMAS ADESIVOS CONVENCIONAIS DE 2 PASSOS, como o primer é apresentado em solução única com o adesivo (2 em 1), ao invés de frascos separados, pode ter seu efeito reduzido, comparado a sua aplicação individual, desta forma, com intuito de contornar este problema e aumentar sua eficácia, aplica-se com o Microbrush uma primeira camada da solução 2 em 1, com fricção por 30 segundos, suaves jatos de ar auxiliam na evaporação do solvente, sem deixar excessos e SEM fotopolimerização.

Adesivos (Bond):

O adesivo, também chamado de Bond, atua como agente de união entre os substratos dentários (esmalte e dentina) e diversos materiais restauradores odontológicos.

  • No esmalte, preenche irregularidades e porosidades oriundas do condicionamento ácido, proporcionado uma excelente adesão;
  • Na dentina condicionada e com primer, irá se infiltrar pela rede de fibras colágenas e preencher os túbulos dentinários, formando a CAMADA HÍBRIDA, com prolongamentos resinosos chamados de TAGS;
  • Sua aplicação deve ser sem excessos, caso contrário, acúmulos grosseiros, podem alterar as dimensões da superfície, criando interferências durante o tratamento restaurador, após a fotopolimerização. Uma solução é o uso de bolinhas de papel absorvente para remover os excessos do adesivo;
  • A aplicação nos SISTEMAS ADESIVOS CONVENCIONAIS DE 3 PASSOS, também deve ser realizada com auxílio de um Microbrush, e com fricção, após, o uso de suaves jatos de ar uniformizam a camada hibrida, e por último, deve ser fotopolimerizar por aproximadamente 20 segundos;
  • Em SISTEMAS ADESIVOS CONVENCIONAIS DE 2 PASSOS, o adesivo é aplicado juntamente com o primer, adesivo 2 em 1, como visto anteriormente, e após a aplicação da primeira camada (descrita no tópico referente ao primer) deve-se aplicar uma segunda camada com fricção através de um Microbrush, por aproximadamente 30 segundos, fazendo uso de suaves jatos de ar para uniformizar a camada hibrida e auxiliar na evaporação do solvente, conferir se ficou com excessos, e fotopolimerizar por 20 segundos.

E ai, descomplicou os sistemas adesivos?

Vários estudos têm demostrado superioridade dos sistemas adesivos convencionais de 3 passos, embora sua técnica seja mais sensível a erro, por ter mais passos, há maior efetividade quando os materiais são aplicados separadamente, comparado aos sistemas adesivos de dois passos. Entretanto, tudo o que foi pontuado nesta revisão, ajudará na melhor compreensão para a escolha, que cabe a cada profissional, e sucesso será obtido respeitando as características de cada material e sua relação com as estruturas dentárias, e na execução correta das técnicas.

Com a evolução da odontologia adesiva e aprimoramento da adesão as estruturas dentárias, temos como resultado, os sistemas adesivos auto condicionantes, que será discutido na parte II do artigo.

Enquanto isso, confira todos os artigos de Dentística e estética.

Sobre o autor: 

Renato Lenoir C H Martinez | @renato_lenoir

  • Professor de Dentistica e Clínica Integrada pela UNIG – Itaperuna/RJ
  • Professor de Prótese pelo UNIFLU – Campos/RJ
  • Especialista em Prótese e Reabilitação Oral e Estética – SLM
  • Mestrado em Clínica Odontológica – UFF

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