Dentística e Estética

Desgaste dental: saiba como prevenir e tratar!

Desgaste dental: saiba como prevenir e tratar!
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O desgaste dental tem se tornado uma condição comum, podendo afetar indivíduos de diferentes faixas etárias. Com sinais iniciais sutis, que podem, muitas vezes, passarem despercebidos, o diagnóstico precoce e a implementação de estratégias preventivas principalmente em idades jovens, são fundamentais para o controle dessa condição. Como resultado disso, evitando o seu avanço para estágios patológicos.

Apesar de tratar-se de uma condição multifatorial, já se sabe que a ação de ácidos não bacterianos é um fator importante na etiologia dessas lesões, sendo comum nos referirmos a este processo como desgaste dental erosivo.  Assim, grande parte das medidas preventivas estão relacionadas à correta orientação aos pacientes, para que eles adquiram saudáveis hábitos de dieta e higiene oral, bem como ao uso de produtos fluoretados.

Mas, primeiro, como diagnosticar corretamente essa condição?

Inicialmente, deve ser realizada uma criteriosa anamnese, abordando não apenas o histórico médico e odontológico do paciente, como também os fatores que estão relacionados a etiologia e a progressão do desgaste dental.

Podemos citar alguns exemplos:
  • Consumo frequente de bebidas e alimentos ácidos;
  • Hábitos de higiene inadequados;
  • Uso de medicamentos;
  • Presença da doença do refluxo gastresofágico;
  • Distúrbios alimentares;
  • Hábitos parafuncionais.

Pode-se, ainda, solicitar ao paciente um diário alimentar onde ele anotará a sua dieta por ao menos quatro dias. Atenção especial deve ser dada ao consumo dos alimentos ácidos e ao momento do consumo.

É importante ressaltar que o paciente deve anotar os produtos de higiene oral que ele utiliza. A detecção do desgaste dental é realizada de maneira visual, observando características na morfologia dental que sejam compatíveis com essa condição. Nos pacientes que reportarem xerostomia ou que apresentarem sinais de hiposalivação, recomenda-se realizar uma mensuração do seu fluxo salivar. Isso porque a saliva exerce um papel protetor importante contra o desgaste dental, principalmente contra o desgaste dental erosivo.

Como prevenir?

A mais importante medida preventiva é a identificação e, futuramente, a diminuição da incidência dos fatores causais, como, por exemplo, o consumo de bebidas e alimentos ácidos, sempre tentando estabelecer metas realistas. Em suma, podemos citar alguns exemplos de medidas para prevenção do desgaste dental:

  • Formas de ingestão que aumentem o tempo de contato do alimento com os dentes devem ser evitadas;
  • É indicado o uso de canudos para ingerir bebidas ácidas, de forma a direcioná-las para a garganta, diminuindo o contato com os dentes.
  • Alimentos ricos em cálcio e fosfato, mesmo tendo um pH mais ácido, como o iogurte, não possuem potencial erosivo, podendo até mesmo exercer ação protetora;
  • Estimular o maior consumo de água, visto que muitos pacientes utilizam bebidas ácidas para saciar a sede.
  • E o aumento do fluxo salivar, por meio da mastigação de goma de mascar sem sacarose, pode aprimorar as funções protetoras da saliva contra o desgaste dental, além de aumentar a limpeza e promover o tamponamento dos ácidos erosivos.

Existem vários fatores que propiciam o desgaste dental

Atenção também deve ser dada ao consumo excessivo de álcool ou drogas, que podem atuar diretamente nos dentes, devido ao seu conteúdo ácido, ou indiretamente, por predispor à outras condições, como o refluxo. Além disso, alguns ofícios também podem expor os pacientes a um risco maior de desgaste dental, como é o caso dos que trabalham em indústrias químicas, que se expõem a gases ácidos presentes no ambiente.

Nesses casos, é importante que se utilize os equipamentos de proteção necessários. Atletas profissionais geralmente ingerem repositores energéticos e de eletrólitos, que são, em sua maioria, bebidas ácidas. Entretanto, ao fazer isso com a boca seca, devido ao esforço realizado, pode-se ter um risco aumentado de desenvolver um desgaste dental excessivo.

Por fim, para pacientes com doença do refluxo gastresofágico ou algum transtorno alimentar que envolva repetidos episódios de êmese, como a bulimia, é imprescindível o seu encaminhamento para médicos especialistas, que irão realizar o tratamento da condição patológica.

Adicionalmente, podemos indicar o bochecho de uma solução aquosa de bicarbonato de sódio ou então o uso de medicamentos antiácidos (sal de frutas, leite de magnésia), que podem ajudar a neutralizar os ácidos que entraram em contato com os elementos dentais. Hábitos de higiene inadequados também podem ser prejudiciais. Nesse contexto, algumas dúvidas podem surgir:

Quanto tempo esperar para escovar após ingerir um alimento ácido?

Muito se fala que, para a realização da higiene oral, seria benéfico um tempo de espera após o consumo de alimentos ácidos. A explicação seria que, após esse período, a saliva iria remineralizar o substrato erodido, tornando-o mais resistente ao desgaste. Entretanto, ainda não existem evidências clínicas que mostrem a relevância do tempo de espera na prevenção do desgaste erosivo.

Questiona-se o fato de existir uma remineralização real dos substratos com esse curto tempo de exposição à saliva. Portanto, sugere-se que orientar o paciente a ter hábitos de higiene saudáveis é mais importante na prevenção do desgaste dental erosivo do que recomendar um tempo de espera para a escovação. Atenção deve ser dada à frequência da escovação, duração do ato, o não uso de força excessiva e à técnica de escovação.

Qual tipo de escova devo recomendar?

Existe uma controvérsia na literatura sobre qual tipo de escova seria a mais adequado para indivíduos com desgaste dental.

Contudo, a indicação de escovas macias, além de diminuir o desgaste quando da utilização de dentifrícios muito abrasivos, está também relacionada ao fato de serem menos agressivas aos tecidos gengivais. Quanto às escovas elétricas, foi observado que elas não exercem um risco clinicamente relevante aos tecidos duros.

Qual dentifrício devo indicar?

A abrasividade dos dentifrícios é um fator importante a ser considerado. Devem ser sempre recomendados dentifrícios pouco abrasivos; porém, muitas vezes, essa informação não é fornecida pelos fabricantes. Apesar de haver uma grande variabilidade no grau de abrasividade promovido pelos diferentes dentifrícios, a maioria dos que são comercializados atualmente possuem valores de abrasividade que podem ser considerados seguros para os tecidos duros.

Existem alguns dentifrícios próprios para a prevenção e o controle do desgaste dental erosivo, os quais, em geral, são pouco abrasivos. E além de fluoretos, apresentam outros compostos, como: estanho e alguns sais de cálcio e fosfato, que também possuem uma ação protetora.

Além dos dentifrícios, os fluoretos estão presentes em outros veículos, como os enxaguatórios, vernizes e géis. Sendo amplamente recomendados para a prevenção e controle do desgaste dental, principalmente o desgaste dental erosivo.

Devido à necessidade de uma alta frequência de aplicação, os produtos de uso caseiro são os mais recomendados. Isso porque possuem melhor evidência de efetividade para os que contêm fluoreto de estanho ou a combinação entre sais de fluoreto e de estanho, adicionados separadamente.

Referências:

  • João-Souza SH, Lopes RM, Aranha ACC, Scaramucci T. Desgaste dental: Prevalência e fatores de risco. In: Rayssa Zanatta, Murilo Feres, Danilo Duarte. (Org.). Lesões não cariosas e HMI. 1ed.Nova Odessa: Napoleão Ltda., 2019, v. 2, p. 30-41;
  • Carvalho JC, Scaramucci T, Aimée NR, Mestrinho HD, Hara AT. Early diagnosis and daily practice management of erosive tooth wear lesions. Br Dent J. 2018;224(5):311-318. doi:10.1038/sj.bdj.2018.172;
  • Scaramucci T, Carvalho JC, Hara AT, Zero DT. Causes of Dental Erosion: Intrinsic Factors. Dental Erosion and Its Clinical Management. 2ed.: Springer International Publishing, 2015, p. 35-67;
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Autores:

Dra. Taís Scaramucci

Especialista em Odontopediatria pela Fundecto-USP.
Doutora em Odontologia (Dentística) pela Universidade de São Paulo com estágio de Doutorado Sanduíche no Oral Health Research Institute, Department of Cariology, Operative Dentistry and Dental Public Health, Indiana University, School of Dentistry (IUSD).
Pós-Doutorado: Oral Health Research Institute Department of Cariology, Operative Dentistry and Dental Public Health, Indiana University, School of Dentistry (IUSD).
Professora Doutora do Departamento de Dentística da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP).

Dr. Ítallo Emídio Lira Viana

Cirurgião-Dentista (ICT/UNESP);
Mestre em Dentística (FO/USP);
Visiting International Researcher (IUSD/USA);
Habilitado em Lasers em Odontologia (LELO/USP);
Doutorando em Dentística (FO/USP).

 

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