Guia completo sobre cimentos endodônticos

Conheça mais afundo sobre os tipos de cimentos endodônticos e suas formas de aplicação.

O tratamento endodôntico deve ser considerado um processo cujas fases são igualmente importantes e, como tal, necessitam atenção e cuidados em cada etapa realizada. Desde o correto diagnóstico, com avaliação dos exames radiográficos e se necessário tomográficos, correta abertura, devida instrumentação, utilização das substâncias irrigadoras que mais preencham os requisitos de uma solução ideal, medicação intracanal (se ela for necessária) e obturação.

A obturação por sua vez, deve ser feita após a remoção do smear layer, modelagem do canal e com ausência de sintomatologia, fístula e exsudato.

E o que devemos usar?

Os materiais obturadores usados nas mais diferentes técnicas de obturação são a guta-percha e o cimento endodôntico.

A guta-percha é considerada um material impermeável, mas ela não adere às paredes dentinárias. Por essa razão, torna-se necessário o uso de cimentos endodônticos junto com a guta-percha para que ocorra este selamento hermético dos canais radiculares.

Embora a guta-percha deva ser em volume, o maior constituinte da massa obturadora, os cimentos endodônticos são usados para reduzir a interface entre a guta-percha e as paredes dos canais radiculares.

Quais são as características dos cimentos endodônticos de boa qualidade?

Os cimentos endodônticos devem promover uma adesão, ter radiopacidade, bom escoamento, tempo de trabalho adequado, estabilidade dimensional, insolubilidade aos tecidos tissulares e terem solubilidade a solventes.

Com relação as considerações biológicas, os cimentos endodônticos devem ser atóxicos, promover reação inflamatória mínima quando em contato com tecidos periapicais, serem reabsorvíveis quando extravasados e favorecer o processo biológico de cicatrização dos tecidos periapicais.

O cimento padrão ouro e mais indicado na atualidade é o cimento resinoso AHPlus da Dentsply.

Quais são os tipos de cimentos endodônticos mais usados nas obturações dos canais radiculares?

Atualmente, temos os seguintes materiais:

  1. Cimentos à base de óxido de zinco e eugenol
  2. Cimento à base de hidróxido de cálcio
  3. Cimento à base de resinas plásticas
  4. Cimento à base de resina de salicilato e MTA
  5. Cimentos biocerâmicos

  1. Cimentos à base de óxido de zinco e eugenol

Os cimentos a base de óxido de zinco e eugenol são os mais utilizados no mercado. Possuem atividade antibacteriana, efeito anestésico e efeito anti-inflamatório. Porém, possuem citotoxicidade e neurotoxicidade. Eles são absorvidos se houver extrusão, tem tempo de presa longo e sofrem contração ao tomar presa. Exemplos destes cimentos podem ser observados na figura 1.

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Figura 01 – Cimentos à base de óxido de zinco e eugenol

Na espatulação, o cimento deve ter uma consistência que ao afastar a espátula da placa, forme um fio de união (2,5mm). Estes cimentos podem ser classificados em cimento de Grossmann e cimento Rickert.

Cimento de Grossman

Tem baixa solubilidade, boa aderência, alta fluidez, não pigmenta a estrutura dental, sua biocompatibilidade não é favorável e apresenta poder antimicrobiano. (endofill, pulp fill, fill canal). Tempo de trabalho é de 24 horas e o endurecimento leva 40 horas.

Cimento de Rickert

Pulp canal sealer – Apresenta alta fluidez e escoamento, boa aderência, pigmenta a estrutura dental – prata – necessita de uma boa limpeza da câmara (álcool), sua biocompatibilidade não é favorável e antimicrobiano. Tempo de trabalho e de 30 minutos e o endurecimento leva 1 hora. Pulp canal sealer EWT (extended working time) tempo de trabalho de 6 horas e endurecimento maiores (2 horas).

Endomethasone N É um cimento da Septodont, nesta formulação isento de paraformaldeído. Também é à base de oxido de Zinco e você usa o Eugenol como o líquido.  Ele é um cimento com propriedade antissépticas e anti-inflamatórias devido a presença da hidrocortisona, reduzindo inflamações pós-operatórias. Apresenta tempo de trabalho prolongado, tem indicações positivas para necropulpectomia. Porém, a bula do medicamento fala que você deve trabalhar com ele dentro do canal e evitar o ápice radicular.  O Eugenol apresenta citotoxicidade e este poder interferir negativamente no processo de reparo tecidual.

O extravasamento intencional nunca deverá ser um objetivo e sim uma consequência do tratamento. O extravasamento é responsável por aumentar e manter a inflamação crônica residual pós-tratamento, que é raramente diagnosticada radiograficamente. Idealmente, o material obturador deve ficar confinado no interior do canal radicular. A maioria de estudos anatômicos e histológicos sugerem o término da obturação na constricção apical, na qual irá resultar em um melhor reparo e irá aumentar a taxa de sucesso.

  1. Cimentos à base de hidróxido de cálcio

Cimentos biocompatíveis, permitindo selamento apical e bom reparo apical (figura 2).

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Figura 2 – Cimentos à base de hidróxido de cálcio

Sealer 26 – Cimento a base de resina epóxica com hidróxido de cálcio. Alta plasticidade e viscosidade, apresenta boa capacidade de selamento, baixa radiopacidade, alta solubilidade quando extravasado, não tem mais prata, altos índices de liberação de íons cálcio, muito bem tolerado pelos tecidos periapicais, selamento biológico, tempo de presa de 48 a 60 horas e no interior do canal, 12 horas.

Sealapex – Alta plasticidade e viscosidade, baixa radiopacidade, alta solubilidade quando extravasado, altos índices de liberação de íons cálcio muito bem tolerado pelos tecidos periapicais, não tem boa radiopacidade, selamento biológico, tempo de presa 2 horas (23 graus c): 1 hora (37 graus C).

Cimento HydroSealer – Cimento à base de Hidróxido de Cálcio e Resina Epóxica. Apresenta excelente biocompatibilidade, estabilidade dimensional, facilidade de trabalho e alta radiopacidade. Não exibe contração durante a reação de presa e possui excelentes propriedades físicas e biológicas. Estimula a deposição de dentina reparadora.

  1. Cimentos à base de resinas plásticas

O cimento a base de resinas plásticas: adesão, radiopacidade, tempo de presa longo, bom escoamento e bem tolerado pelos tecidos (figura 3).

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Figura 03 – Cimentos à base de resinas plásticas

AHPLUS – O cimento resinoso principal e padrão ouro na Endodontia é o AHPLUS. Ele é um cimento a base de resina de epóxi-amina. Esse cimento tem um bom tempo de trabalho, boa estabilidade dimensional, radiopacidade e adesividade, baixa solubilidade, ótima capacidade adesiva, bom selamento apical além de ser tolerado pelos tecidos. O bacana é que ele tem uma expansão volumétrica de 0,4 a 0,9% depois de 4 semanas.

O cimento AHPLUS tem a Pasta A e a pasta B. É a pasta B (branca) que tem um óleo de silicone que as vezes sai antes do produto. Ele pode ser encontrado em forma de bisnagas ou na forma de dispensador em partes iguais (AHPlus Jet).  Quando em bisnaga, o ideal é massagear a bisnaga antes de usar pra misturar os componentes e não sair o óleo de silicone primeiro. O seu tempo de trabalho é de 4 horas e o tempo de endurecimento é de 8 horas. Além disso, tolera o calor não perdendo suas propriedades químicas durante a termoplastificação.

Sealer Plus (MKlife) – Cimento à base de resina epóxi que tem um dispensador que já dispensa em partes iguais o cimento.  Possui boa tolerância dos tecidos apicais, radiopacidade e impermeabilidade. Seu tempo de trabalho em temperatura ambiente é de aproximadamente 20 minutos, permitindo eventuais correções durante a operação.

  1. Cimento à base de resina de salicilato e MTA

Selamento marginal de longa duração, alta radiopacidade, não contém eugenol ou tungstato de cálcio, estimula a formação de tecido duro, tem baixa solubilidade em fluidos tissular, tempo de trabalho de 30 minutos, tempo de presa de 120 minutos. O cimento incluso nesta categoria e disponível a venda no Brasil é o MTA Fillapex da Angelus que possui 13% de MTA. Possui sistema de bisnagas e também seringa automix (figura 4).

Figura 4 – Cimento MTA Fillapex da Angelus
  1. Cimentos biocerâmicos para obturação

Os cimentos biocerâmicos são cimentos hidráulicos biocompatíveis, hidrofílicos, têm bom selamento, alta regeneração biológica, boa radiopacidade, isento de alumínio = não absorvível, radiopaco, antimicrobiano, libera hidróxido de cálcio e hidroxiapatita, não escurece dente, tempo de presa 4-10 horas (figura 5).

Não escurecem o dente e é importante depois da última irrigação com EDTA e hipoclorito de sódio, lavar com soro fisiológico.  Eles induzem a regeneração tecidual e inibem a infiltração bacteriana. Eles podem se apresentar na forma pó/líquido ou já virem prontos para uso. Além disso, precisam da umidade dos túbulos dentinários para tomar presa. Deve-se secar o canal, com a capillary tips, não deixar “molhado” e com um cone de papel só para não deixar excesso de umidade. A obturação é cone único. Ele teoricamente é não reabsorvível.

No Brasil temos o Bio C Sealer da Angelus, o BioRoot RCS da Septodont e o Sealer Plus BC da MKlife.

Confira o artigo publicado aqui no blog da dentral cremer sobre cimentos biocerâmicos.

>>> O uso dos biocerâmicos na Endodontia <<<

Figura 5 – Cimentos biocerâmicos para obturação

Conclusão

Independente do cimento que você escolher, é importante sempre blindar o sistema de canais radiculares, fazendo uma limpeza também da câmara pulpar e utilizar o método reabilitador que for necessário para cada caso clínico.  Depois de toda reabilitação do dente, proservações são extremamente necessárias para poder constatar o sucesso da terapia endodôntica.

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