Odontogeriatria: a especialidade do presente (e do futuro) da Odontologia

O envelhecimento da população brasileira não é mais uma tendência distante — é um dado consolidado. Segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE, o Brasil já tem 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população total, um crescimento de 56% em relação a 2010. As projeções mais recentes do próprio IBGE indicam que esse número deve chegar a 34,1 milhões em 2024 e seguir subindo: até 2070, quase 38% dos brasileiros serão idosos.

Esse cenário não é só uma questão demográfica — é uma questão de mercado de trabalho para quem está se formando em Odontologia agora. Cresce a população idosa, cresce a demanda por cuidados bucais específicos para essa faixa etária, mas o número de profissionais preparados para atendê-la ainda é pequeno. Se você é estudante ou recém-formado buscando uma área com espaço real para crescer, vale conhecer de perto a Odontogeriatria.

O que é Odontologia Geriátrica?

A Odontologia Geriátrica é o ramo da odontologia responsável por proporcionar cuidados preventivos, reabilitadores e curativos a pacientes idosos, considerando as particularidades fisiológicas, patológicas e psicológicas do envelhecimento.

Dentistas que desejam atuar nesse campo podem se especializar em Odontogeriatria, especialidade reconhecida pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO) desde 2000. Além dos cuidados clínicos, a área tem um papel importante na autoestima, no conforto, na socialização e na qualidade de vida do paciente idoso.

Por que essa é uma especialidade com espaço para crescer

Este é o ponto mais relevante para quem está escolhendo uma área de atuação: a Odontogeriatria ainda é pouco explorada no Brasil. Segundo dados do CFO, de um universo de 376.844 cirurgiões-dentistas registrados no país, apenas 274 são especialistas em Odontogeriatria. Ou seja, menos de 0,1% dos dentistas brasileiros têm essa formação — um número minúsculo diante de uma população idosa que já ultrapassa os 32 milhões de pessoas e continua crescendo.

Para o presidente do CFO, Juliano do Vale, a Odontogeriatria pode ser considerada uma das especialidades do futuro — e também do presente — da Odontologia. Um dos fatores que explica essa lacuna é curricular: poucas faculdades oferecem a disciplina de forma consistente na graduação, o que faz com que muitos acadêmicos conheçam pouco a área. Some-se a isso o etarismo (preconceito com a idade), que ainda afasta profissionais desse campo — mesmo sabendo que, um dia, todos envelhecerão e vão preferir ser atendidos por quem entende as necessidades específicas dessa fase da vida.

Na prática, isso significa oportunidade: quem se especializa cedo tende a encontrar menos concorrência e mais demanda represada, com possibilidade de atuação em consultório fixo, home care, day clinics, instituições de longa permanência para idosos (ILPIs) e ambiente hospitalar.

Os números da saúde bucal do idoso no Brasil

Os dados mais recentes de saúde bucal reforçam a urgência da área. A Pesquisa Nacional de Saúde Bucal (SB Brasil 2023), do Ministério da Saúde — a primeira grande atualização epidemiológica desde 2010 — mostra um retrato ainda preocupante entre os idosos brasileiros:

  • Cerca de 34% dos idosos são edêntulos totais (não têm nenhum dente), um índice bem acima do observado em países como Estados Unidos (15%) e Alemanha (11%);
  • Aproximadamente 70% dos idosos brasileiros precisam de algum tipo de prótese dentária;
  • Persistem desigualdades regionais importantes: o acesso a tratamento especializado ainda é bastante desigual entre capitais e interior, e entre diferentes classes sociais.

Vale destacar que a maioria da população idosa brasileira depende do SUS para tratamento odontológico — o que torna a formação de mais especialistas também uma pauta de saúde pública, e não só de mercado privado.

Problemas bucais que surgem com a idade

Pacientes idosos demandam cuidados especiais. Uma parcela expressiva dos brasileiros acima de 60 anos apresenta doenças sistêmicas como hipertensão arterial ou diabetes, e cabe ao cirurgião-dentista estar atento aos problemas bucais que podem surgir do controle inadequado dessas condições, como hiperplasias, xerostomia (boca seca) e sangramentos gengivais.

A diminuição da produção de saliva — muitas vezes decorrente do uso contínuo de medicamentos — também pode causar aftas, mucosites e desmineralização dos dentes. Outros desafios comuns encontrados pelo odontogeriatra incluem:

  • Mucosas mais finas e sensíveis, sujeitas a traumas e lesões durante o tratamento;
  • Dentes mais escuros e sensíveis, devido ao acúmulo de minerais e ao desgaste natural dos tecidos;
  • Retração gengival, associada a problemas oclusais, perdas e movimentações dentárias, má higiene oral e escovação traumática;
  • Periimplantite, doença infecciosa cada vez mais frequente com o aumento do uso de implantes na terceira idade.

Casos mais comuns em pacientes da terceira idade

Diante desses desafios, alguns procedimentos são especialmente frequentes na rotina do odontogeriatra: substituição de dentes ausentes, atualização de próteses antigas e tratamento de doenças periodontais como gengivite, periodontite e retração gengival.

Muitos pacientes optam por próteses totais ou parciais móveis, ou por próteses sobre implantes, a depender das condições de saúde bucal e da disponibilidade óssea de cada paciente.

Restaurações em Odontogeriatria

As restaurações exigem atenção especial à tonalidade dos dentes, já que dentes envelhecidos costumam apresentar alterações de cor ao longo do tempo. A forma mais prática de selecionar a cor ideal é usando a Escala Vita, que contempla tonalidades como:

  • Tons A – Vermelho-acastanhado;
  • Tons B – Amarelo-avermelhado;
  • Tons C – Acinzentado;
  • Tons D – Cinza-avermelhado;
  • Tons BL – Dentes clareados.

Em pacientes idosos, os tons C (acinzentados) são os mais comuns, relacionados à presença de minerais no dente e/ou a restaurações antigas. Por isso, é recomendável trabalhar com resinas que ofereçam boa variação dentro da escala C (C1, C2, C3 e C4).

Como atender pacientes de odontogeriatria no consultório

O profissional de odontogeriatria precisa adequar o consultório às limitações físicas do paciente idoso e considerar a presença de familiares e cuidadores no processo de tratamento.

Priorize a acessibilidade — cadeiras confortáveis, boa mobilidade, espaço para cadeirantes e ausência de escadas íngremes no acesso ao consultório.

Envolva a família e os cuidadores — eles compartilham informações relevantes sobre o paciente e ajudam a garantir a adesão às recomendações de tratamento.

Faça uma anamnese completa — investigue hábitos, condições de saúde e medicamentos de uso contínuo, fundamentais para um plano de tratamento seguro.

Planeje o atendimento com cuidado — prefira horários em que o idoso esteja mais disposto, geralmente pela manhã, e mantenha um diálogo aberto e humanizado para construir confiança.

Cuidados necessários com a saúde bucal do idoso

Higiene bucal diária

  • Usar escovas de cerdas macias, já que a mucosa oral fica mais friável com a idade;
  • Escovar os dentes ao menos duas vezes ao dia, com atenção especial antes de dormir;
  • Complementar com fio dental e enxaguante bucal sem álcool;
  • Remover próteses móveis à noite;
  • Mastigar bem os alimentos para estimular a salivação;
  • Manter consultas regulares com o odontogeriatra.

Manutenção de próteses

  • Enxaguar bem a prótese para remover resíduos;
  • Higienizar fora da boca, com escova própria e sabão neutro (creme dental pode danificar o material);
  • Fazer a limpeza sobre a pia, e não durante o banho;
  • Escovar também a língua;
  • Armazenar a prótese em recipiente com água limpa ou solução específica.

Alimentação equilibrada Uma dieta rica em cálcio — laticínios, vegetais de folhas verdes — ajuda a fortalecer dentes e ossos, prevenindo cáries e outras doenças bucais, além de contribuir para a saúde geral do paciente.

Uma área para olhar com atenção

Os números não deixam dúvida: o Brasil está envelhecendo rápido, a saúde bucal da população idosa ainda apresenta lacunas relevantes, e o número de especialistas capacitados para atendê-la é desproporcionalmente pequeno. Para quem está na graduação ou nos primeiros anos de carreira, a Odontogeriatria representa um raro cenário de alta demanda futura combinada com baixa concorrência atual — além de um trabalho com forte impacto na qualidade de vida de milhões de pessoas.

Fontes: IBGE (Censo Demográfico 2022 e Projeções de População); Ministério da Saúde (SB Brasil 2023); Conselho Federal de Odontologia (CFO).

Comentários

2 Comentários
  1. Por favor, vocês poderiam me indicar nomes e endereços de odonto geriatras, em São Paulo, captital?Muito grata

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