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Ortodontia no Projeto Dentista do Bem

Ortodontia no Projeto Dentista do Bem
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São chocantes as situações que encontramos a cada triagem no Projeto Dentista do Bem. Como coordenadora regional e quase ortodontista (termino a especialização no começo do ano que vem) não posso deixar de comentar o que encontramos nas triagens. Que aparelho para enfeite está na moda todos sabemos e esse assunto já está saturado de tanto que foi debatido por dentistas nas redes sociais. Os malefícios que o mesmo causa também não são novidade, mas o que fazer quando damos de frente com um paciente que colocou aparelho achando que estava tratando/corrigindo o seu sorriso?

A história é a seguinte: “Fui à clínica “Dentalgumacoisa” porque eu precisava colocar aparelho e lá é mais barato. Colaram em cima e embaixo, e a manutenção dos dois é R$ 80,00. Tem mês que não tenho dinheiro, aí pago a manutenção só de uma, aí fica só R$ 40,00”.

Através desse relato, é possível imaginar que o dentista em questão pode não ser dentista, mas o que estranhei foi o fato de ser uma clínica. Alguém que comprou bráquetes, elásticos e adesivo ortodôntico e colou – de maneira errada, óbvio – o aparelho na boca da pessoa. E pior que isso, é fazer consulta de manutenção mais cara que a da maioria dos cursos de especialização. Como que dorme uma pessoa dessas à noite?

Paciente triada pelo projeto Dentista do Bem na MegaTriagem. Bráquetes de ICS colados em todos os dentes de PM à PM. Arcada superior com fio de amarrilho conjugado e sem fio e arcada inferior com fio de amarrilho no espaço da canaleta dos bráquetes, também sem fio.

Quando eu trabalhava na Estratégia de Saúde da Família como dentista era comum aparecer paciente do “dentista que cola aparelho em casa”. Em muitos casos havia cáries e condição periodontal péssima, e mesmo sem conhecer ortodontia mais de perto – comecei a especialização em ortodontia depois do serviço público – entendia que aquilo não poderia estar certo, devido algumas colagens e bráquetes estranhos até então para mim. No entanto, eu sempre tirava o aparelho do paciente quando este solicitava, para parar de reter placa.

É preciso de muito bom senso quando visualizamos o aparelho de um paciente que chega até nós – seja por encaminhamento de colega ou por conta própria, ou através do projeto Dentista do Bem mesmo. Omitir nossa opinião como profissional não é o correto numa hora dessas, pois está causando danos ao paciente e nós sabemos disso.

Se o colega que o encaminhou é o ortodontista (de verdade) sem problemas, uma conversa com este colega pode resolver qualquer dúvida sobre a mecânica que está sendo utilizada, principalmente se é necessário remover determinado bráquete ou fio para realizar determinado procedimento. Normalmente ortodontistas mandam por escrito qualquer solicitação ao clínico geral, e algo fora da normalidade será facilmente explicado.

Agora, quando o “ortodontista” mandar extrair dois terceiros molares que já não mais existem na boca do paciente, desconfie. Há muita gente que mal se tornou dentista e está colando aparelhos por aí em clínicas populares, como caso de paciente que já me procurou com elásticos intermaxilares para Classe II numa Classe III. Falei para o paciente conversar com o dentista pra ver se estava colocando os elásticos de maneira correta na boca, apenas para tirar uma dúvida.

Se o paciente chegou por conta própria, vale usar aquilo tudo que aprendemos na faculdade e usar nosso “poder de persuasão” para convencê-lo de que o aparelho está sendo mais prejudicial do que fazendo bem, poderá causar cáries e que não é indicado continuar assim. E, por fim, se triamos um paciente desses, cabe a nós colocar uma observação na ficha de triagem e preencher bem os critérios socioeconômicos. Há chances de esse paciente ser beneficiado pelo Projeto Dentista do Bem e começar a sorrir de verdade!

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