Recessão Gengival: Diagnóstico, Classificação e Tratamento Cirúrgico

Uma abordagem clínica baseada em evidências — da etiologia multifatorial à seleção da técnica cirúrgica ideal para cada caso de recobrimento radicular.

A recessão gengival — ou retração gengival — é definida como o deslocamento apical da margem gengival em relação à junção cemento-esmalte (JCE), resultando na exposição da superfície radicular ao meio bucal. Trata-se de uma das condições periodontais mais prevalentes na clínica odontológica e com impacto direto na qualidade de vida do paciente, sobretudo pela hipersensibilidade dentinária e pela demanda estética.

Para o cirurgião-dentista, o domínio da etiologia, da classificação e das opções terapêuticas disponíveis é imprescindível para um planejamento preciso e para resultados previsíveis a longo prazo.

O que é a Recessão Gengival e por que ela ocorre?

Imagem de uma boca aberta mostrando dentes naturais e rengas, com foco na arcada dentária, usada para análise odontológica e tratamentos de dente.
Paciente com retração gengival: dentes 15 e 16

A recessão gengival tem etiologia multifatorial, e sua instalação está invariavelmente associada a um processo inflamatório tecidual — seja de origem infecciosa, mecânica ou iatrogênica.

Compreender a causa raiz é o primeiro passo para eleger a conduta terapêutica correta e evitar a recidiva pós-tratamento.

Fatores etiológicos e predisponentes

  1. Doença periodontal (periodontite crônica ou agressiva): destruição do suporte alveolar e perda de inserção com migração apical da margem gengival.
  2. Trauma mecânico por escovação: técnica inadequada, pressão excessiva ou uso de escovas de cerdas duras — causa frequentemente subestimada na clínica.
  3. Biótipo periodontal fino: menor espessura de tecido queratinizado e tábua óssea vestibular delgada conferem maior vulnerabilidade à recessão.
  4. Má posição dentária e movimentação ortodôntica acelerada: pode ultrapassar os limites do processo alveolar, induzindo processo inflamatório e perda de inserção; as recessões pós-ortodônticas são especialmente comuns nos incisivos inferiores.
  5. Condições sistêmicas: diabetes mellitus descompensado e tabagismo comprometem a resposta imune, a vascularização gengival e a cicatrização tecidual.
  6. Fatores locais irritativos: piercings orais, conectores metálicos de próteses em contato direto com o tecido gengival e restaurações com margens subgengivais inadequadas.
  7. Frenilhos e bridas musculares de inserção alta: tração contínua sobre a margem gengival livre.

Ponto-chave: A recessão raramente tem causa única. A anamnese minuciosa deve investigar todos os fatores predisponentes de forma sistemática antes de qualquer intervenção cirúrgica ou restauradora.

Classificação das Recessões Gengivais

A classificação orienta diretamente o prognóstico do recobrimento radicular e a seleção da técnica cirúrgica. As duas classificações mais utilizadas na literatura contemporânea são a de Miller (1985) e a de Cairo (2011), sendo esta última a mais adotada atualmente por ser mais objetiva e reprodutível.

Classificação de Cairo (2011) — RT1, RT2, RT3

ClasseDescrição clínicaPrognóstico de recobrimento
RT1Recessão sem perda de inserção interproximal (sem perda de osso/tecido mole interdental). Corresponde às Classes I e II de Miller.✅ Recobrimento radicular completo possível
RT2Perda de inserção interproximal menor ou igual à perda vestibular. Equivale à Classe III de Miller.⚠️ Recobrimento parcial — prognóstico reservado
RT3Perda de inserção interproximal maior que a perda vestibular. Corresponde à Classe IV de Miller.❌ Recobrimento completo improvável

Por que a classificação importa no planejamento?

Casos RT1 e RT2 com perda interproximal mínima são os que apresentam os melhores índices de recobrimento radicular completo após cirurgia. A indicação do ETCS com retalho posicionado coronalmente (RPC) em casos RT3 avançados deve ser feita com cautela, e o paciente deve ser orientado sobre as expectativas realistas do tratamento.

Diagnóstico Clínico e Anamnese

O diagnóstico da recessão gengival é predominantemente clínico, mas seu manejo eficaz depende de uma anamnese estruturada e de exame periodontal completo, incluindo sondagem em seis pontos por elemento, registro da margem gengival em relação à JCE e avaliação do nível clínico de inserção interproximal.

Itens essenciais na anamnese periodontal

  • Histórico de doença periodontal e tratamentos anteriores;
  • Uso atual ou prévio de aparelho ortodôntico e velocidade da movimentação;
  • Hábitos de higiene oral: frequência, técnica, tipo de escova utilizada;
  • Tabagismo, etilismo e condições sistêmicas (especialmente diabetes);
  • Medicamentos em uso (anticonvulsivantes, bloqueadores de canal de cálcio, imunossupressores);
  • Presença de piercings, bruxismo ou parafunções;
  • Queixas estéticas e sintomáticas referidas pelo paciente.

Atenção: Procedimentos cirúrgicos realizados sem a eliminação dos fatores causais apresentam alta taxa de recidiva. A anamnese não é burocracia — é o alicerce do prognóstico.

Manifestações Clínicas: além da raiz exposta

A exposição radicular é o sinal mais evidente da recessão, mas o quadro clínico costuma ser acompanhado de outras manifestações que precisam ser avaliadas e manejadas:

Hipersensibilidade dentinária

Resultante da exposição dos túbulos dentinários ao meio bucal, a hipersensibilidade é um dos sintomas mais relatados pelos pacientes. Sua abordagem pode incluir dessensibilizantes (fluoretos, oxalatos, vernizes de cloreto de estrôncio) como medida paliativa, mas o controle definitivo depende do recobrimento da superfície radicular exposta.

Comprometimento estético

A exposição radicular confere aspecto de “dente longo” e, em zona estética, representa queixa frequente — especialmente em jovens com biótipo fino e após tratamento ortodôntico.

Lesões cervicais não cariosas (LCNCs)

A abrasão, abfração e erosão na região cervical são frequentemente associadas à recessão e podem ser agentes causais ou consequências do trauma. Seu diagnóstico diferencial é fundamental para o planejamento restaurador adjunto.

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Protocolo Terapêutico Baseado em Evidências

O tratamento da recessão gengival deve ser individualizado conforme a classificação da recessão, o biótipo periodontal, a extensão da perda de inserção, a demanda estética e funcional do paciente e a presença de tecido queratinizado residual.

Fase 1 — Controle etiológico (etapa inegociável)

  1. Instrução de higiene oral: técnica de Bass modificada, escova de cerdas macias (ou ultra-macias), orientação sobre pressão de escovação e direção dos movimentos.
  2. Remoção de fatores irritativos locais: piercings, conectores protéticos inadequados, restaurações com margens supragengivais agressivas.
  3. Controle de doença periodontal ativa: raspagem e alisamento radicular, controle do biofilme. Nenhuma cirurgia de recobrimento deve ser realizada com inflamação ativa.
  4. Manejo das condições sistêmicas: controle glicêmico, cessação do tabagismo — ambos impactam diretamente a cicatrização do enxerto.

Fase 2 — Tratamento restaurador (casos iniciais)

Para recessões pequenas (RT1 com altura ≤ 2 mm) sem indicação cirúrgica imediata ou como medida auxiliar, as restaurações cervicais com resina composta podem ser indicadas para:

  • Recobrimento da superfície radicular exposta;
  • Redução da hipersensibilidade dentinária;
  • Proteção contra abrasão e erosão radicular;
  • Melhora estética em casos selecionados.

Fase 3 — Cirurgia de recobrimento radicular (casos avançados)

Para recessões RT1 e RT2 com indicação cirúrgica, a técnica de enxerto de tecido conjuntivo subepitelial (ETCS) associada ao retalho posicionado coronalmente (RPC) é considerada o padrão-ouro, com as maiores taxas de recobrimento radicular completo descritas na literatura.

TécnicaIndicação PrincipalVantagens
ETCS + RPCRT1 / RT2 — recessões isoladas ou múltiplas com TQ adequadoMaior previsibilidade de recobrimento; boa estabilidade a longo prazo
Técnica do envelope / túnelRT1 — recessões múltiplas; pacientes com demanda estética altaMenor trauma cirúrgico; preservação das papilas; cicatrização mais rápida
Substitutos de tecido conjuntivo (Mucograft®, matrizes dérmicas)Quando há limitação de tecido no sítio doador palatinoEvita segundo sítio cirúrgico; menor morbidade pós-operatória
Retalho de avanço coronário (RAC) isoladoRT1 com espessura gengival adequada e TQ suficienteTécnica simples; menor morbidade; resultados aceitáveis em casos selecionados

Evidência clínica: A revisão sistemática de Chambrone et al. (2010) demonstrou que o ETCS associado ao RPC apresenta as maiores taxas de recobrimento radicular completo (média de 82–97% em RT1), sendo a técnica com maior nível de evidência para recessões classes I e II de Miller.

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Fatores que influenciam o prognóstico cirúrgico

  • Espessura do tecido gengival: biótipos finos requerem enxerto conjuntivo para espessamento; biótipos espessos respondem melhor a técnicas sem enxerto.
  • Altura de tecido queratinizado residual: mínimo de 2–3 mm é necessário para mobilização adequada do retalho.
  • Nível ósseo interproximal: a presença do osso interdental é o principal determinante do recobrimento radicular completo.
  • Motivação e compliance do paciente: técnica impecável não compensa má higiene oral no pós-operatório.

Conclusão

A recessão gengival é uma condição de etiologia multifatorial cujo manejo eficaz exige muito mais do que domínio técnico-cirúrgico. O sucesso terapêutico está diretamente vinculado à identificação e ao controle dos fatores causais, ao correto estadiamento da recessão pela classificação de Cairo e à seleção da técnica mais adequada para cada cenário clínico.

O enxerto de tecido conjuntivo subepitelial associado ao retalho posicionado coronalmente permanece como referência na literatura pela sua previsibilidade e estabilidade. Contudo, o emprego das técnicas minimamente invasivas — como a técnica do túnel modificado — vem ganhando espaço pela menor morbidade e resultados estéticos superiores em mãos experientes.

Por fim, reforça-se que nenhum procedimento cirúrgico ou restaurador apresentará resultados duradouros sem a eliminação dos fatores etiológicos e sem o engajamento ativo do paciente no cuidado domiciliar. A parceria entre clínico e paciente não é opcional — é parte integrante do protocolo terapêutico.

Referências Bibliográficas

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